quinta-feira, 8 de outubro de 2015

'Tudo está conectado'



Especialista alerta sobre a importância da consciência ambiental

Caroline Borges 








     Na encíclica Laudato Si', a primeira sobre o meio ambiente, o Papa Francisco levanta a questão de que “nunca é demais insistir que tudo está interligado”. Não se pode relacionar a natureza sem a sociedade. As razões, pelas quais um lugar é destruído na lógica ambiental, exigem uma análise do funcionamento da sociedade, da economia, do comportamento e das maneiras de entender a realidade. A engenheira ambiental Ágatha Tommasi, de 25 anos, ressalta que não se deve pensar nos rios poluídos, sem preocupar-se com as mudanças climáticas. Para ela, estamos em um momento em que é preciso refletir a fim de aumentar a consciência ambiental na sociedade.

     Para Ágatha, a carta do Papa veio em um momento chave, tendo em vista a 21ª Conferência do Clima (COP 21) que será no final de novembro, em Paris. A engenheira ambiental, que representa a América Latina e Caribe no Parlamento Mundial da Juventude pela Água, acredita que mostrar a posição da igreja também é uma forma de pressão política. Com o intuito de aumentar a participação jovem na política internacional, ela ajudou a criar o Parlamento Nacional da Juventude pela Água.

     - Percebi que o nosso continente é o único que ainda não tem uma rede de jovens atuante em prol do meio ambiente. O fato é contraditório, pois temos a maior parte das águas doces superficiais do mundo: 12% delas estão no Brasil. O país com dimensões continentais, biodiversidade rica, biomas distintos e diversas bacias hidrográficas precisa ter a sua própria rede de jovens. Tendo isto em vista, a Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH) deu o apoio institucional para criarmos o Parlamento Nacional (PNJA).

     No texto Um mundo vivo, Déborah Danowski, diretora do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, contrapõe as ideias da Laudato Sí com o Manifesto Ecomodernista. Enquanto na encíclica se fala que a natureza tem um valor intrínseco em que nada é desprezível, os autores do Manifesto criaram o conceito de “descolamento”, que aborda a questão da tecnologia atingindo um estado que, em breve, superará seus custos materiais e os impactos ambientais.



“O nosso
continente
 é o único 
que ainda 
não tem
 uma rede de
 jovens atuantes
em prol do
 meio ambiente”
Ágatha Tommasi
Engenheira ambiental
 

     “Estaria assim realizado o sonho antrópico dos Modernos, o de um pós-ambientalismo onde o homem se verá circundado, sustentado apenas por si mesmo. Não explicam, é claro, onde iremos guardar o lixo nuclear. Nem o que faremos todos quando não houver mais peixes nos mares, quando as secas e inundações tiverem arrasado regiões ou países inteiros, ou quando a Floresta Amazônica, transformada progressivamente em savana, tiver sofrido um incêndio de proporções inimagináveis", escreveu Déborah.

     Os ecomodernistas acreditam que a tecnologia irá ajudar na diminuição dos impactos ambientais, enquanto para Weiler Filho, professor de Fotojornalismo da PUC-Rio, pequenas atitudes diárias já fazem a diferença.
     - Às vezes, eu entro no elevador da PUC e espero as pessoas falarem em que andar elas vão. Normalmente, se eu vou a um andar e o elevador não for parar no meu, eu desço no andar que parar e subo ou desço o lance de escadas para o elevador não parar apenas para uma pessoa.

     O fotógrafo ainda revela que costuma pegar o produto que está mais perto de ser consumido na prateleira do mercado, justamente, porque as pessoas preferem comprar o que dura mais uma semana.

Participação na COP 21

     Entre 30 de novembro a 11 de dezembro, a engenheira Ágatha Tommasi estará presente na COP 21, em Paris. Com a participação de 196 países, a conferência internacional tem o objetivo de firmar um novo acordo para diminuir as emissões de gases estufa, com a intenção de substituir o Protocolo de Kyoto. Ágatha irá participar do evento por meio de uma organização brasileira voltada para aumentar a influência dos jovens na política internacional, a Engajamundo, e pelo Parlamento Mundial da Juventude pela Água, do qual participa como representante da América do Sul e Caribe.

     Ela ficou responsável de fazer um levantamento da influência da água na América do Sul, Central e Caribe. O foco da engenheira ficou em quatro países: Brasil, Argentina, Barbados e Haiti. Segundo ela, é preciso envolver a problemática da água com as mudanças climáticas, que estão completamente conectados. Assim como o papa afirma na encíclica, que “é fundamental buscar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais”. Além desta questão, a COP 21 tem como temas principais a reafirmação do multilateralismo como espaço coletivo de tomada de decisões sobre um tema que atravessa fronteiras físicas e atmosféricas e as Contribuições Intencionais Nacionalmente Determinadas, chamadas de INDCs, que definem quanto, como e quando os países irão reduzir suas emissões.O Brasil ainda é um dos países que não apresentou o seu plano para a redução da emissão de gases.

Jovens atuam em prol da água

     Recém-formada pela PUC-Rio, Ágatha Tommasi se dedica no trabalho de aumentar a participação dos jovens nas políticas internacionais. Agora, ela é dona de uma nova conquista: a criação do Parlamento Nacional da Juventude pela Água (PNJA). Pensando, à princípio, no 8º Fórum Mundial de Água, que será no Brasil em 2018, a Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH), a Secretaria Internacional de Águas e Rede Brasil de os Organismos de Bacias Hidrográficas (REBOB) contribuíram para que essa iniciativa saísse do papel junto aos jovens.

     Segundo o Parlamento, o objetivo é remodelar o futuro tomando parte em discussões relacionadas à temática da água, enfatizar a importância dos jovens nos processos de tomada de decisões. Além disso, pretende criar e estimular plataformas de participação deles e levar o conhecimento em nível local, estadual, regional e nacional.

     Ágatha considera a inserção dos jovens no próximo Fórum um ganho significativo e conta quais são os planos para os próximos anos.

     - Estamos organizando eventos com o comitê organizador do próximo Fórum para os próximos três anos. Em todos eles, vai ter uma participação jovem. Nós queremos que a juventude entenda que o que estão discutindo também são problemas nossos. Nós queremos mostrar que o jovem também é o líder de amanhã. Nós podemos sim trazer conhecimento e consciência para as pessoas. Além disso, podemos também ter um espaço nas discussões políticas.

     Os jovens de todas as áreas de conhecimento e com diversas vocações e talentos são convidados a se candidatar. Os membros do Parlamento deverão ser facilitadores na criação de parcerias para o desenvolvimento e condução de atividades no âmbito local, regional e nacional, além de atuarem na formação de novas lideranças e em processos de mobilização social e educação científica e ambiental pelas águas.
     A engenheira enfatiza que a água faz parte de tudo e a escassez desse recurso é um grande problema. Para a especialista, a ONU tem um grande medo de que a água vire um motivo de guerra ou uma moeda de troca por ser precioso e escasso.

Um comentário:

  1. O Papa Francisco nos lembra de algo muito importante: tudo está conectado. Nossa ação pode causar consequências em todo o campo social. E o mais grave: nossas atitudes hoje podem levar a sérias alterações climáticas e ambientais no futuro. Mas como mudar essa realidade? Algo que me chamou a atenção nessa matéria é quando a engenheira ambiental Ágatha Tommasi afirma que o continente Americano é o único que ainda não tem uma rede de jovens que atuem em prol do meio ambiente. A ação precisa começar por nós para que através de nossas atitudes possamos influenciar nossos pais e toda a nossa família. Precisamos pensar sobre o nosso futuro, sobre o futuro de nossos filhos e consequentemente, o futuro de onde eles vão viver – do nosso planeta.

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