Sociedade
não acredita na catástrofe ambiental que está por vir
Vivemos hoje um drama moderno. Não são apenas os
especialistas ambientais que estão preocupados com o meio ambiente. Até o Papa
Francisco mostrou-se apreensivo com a situação ambiental. A Encíclica Laudato Si’, escrita pelo
Pontífice em junho deste ano, alerta sobre como a humanidade precisa, urgentemente,
cuidar planeta, ou seja, a Casa Comum.
Segundo Francisco, em seu texto, a sociedade
precisa mudar os hábitos de consumo e abrir os olhos para a real condição no
planeta, pois “ao mesmo tempo cresce uma ecologia superficial ou aparente que
consolida um certo torpor e uma alegre irresponsabilidade. Como frequentemente
acontece em épocas de crises profundas, que exigem decisões corajosas, somos
tentados a pensar que aquilo que está a acontecer não é verdade”.
Para o engenheiro ambiental Victor Salazar
Marques, 29 anos, a população tem total consciência do que acontece com o meio
ambiente e sabe que existe uma preocupação latente com o equilíbrio da natureza
sendo discutida. Mas para que haja ação, ele acredita que primeiro é preciso
mudar o que há de intrínseco no ser humano, como vaidade, orgulho e egoísmo.
“As pessoas não querem deixar de consumir para
repartir com o próximo, querem consumir cada vez mais. Isso é ganância. Algumas
situações vão ser irreversíveis e as pessoas só vão se preocupar quando for
tarde demais, como está acontecendo agora com a extinção de algumas espécies
animais e vegetais”, alerta Marques.
Ausência
de comoção
Na psicologia existe uma teoria chamada Modelo
de Kuber-Ross que explica os estágios pelos quais passam as pessoas que
enfrentam tragédias. Talvez seja por isso que a preocupação ambiental na
sociedade esteja ainda no primeiro passo do seu Modelo Kuber-Ross: a negação.
Todos os dias, ao lavar o jardim, a dona de casa
Vânia Soares, 64 anos, usa a mangueira para empurrar as folhas que caem dos
seus vasos de plantas e aproveita para varrer a rua com a mangueira. Além
disso, troca a água da piscina de plástico da neta no quintal todo dia no
verão. A falta de sensibilização ambiental de Vânia está ligada a uma infância
sem um sistema de abastecimento.
“Naquele tempo, não tinha essa de que a água ia
acabar. Até porque eu mal tinha água na torneira. Às vezes caía num dia e
ficava dois sem um pingo d’água e já ajudava a minha mãe a pegar um pouco de
água com o balde na cabeça”, desabafa a dona de casa.
Ainda de acordo com o engenheiro Victor Marques
existe uma diferença muito grande entre a consciência ambiental e a prática
dela, chamada de sensibilização ambiental.
“Não tem como a
pessoa não saber que está impactando o ambiente, mas a maioria das pessoas não
se sensibiliza com isso, não se preocupa. E essa sensibilização só acontece nos
momentos de crise. É importante para que isso acelere a mudança de cultura da
pessoa e que ela tenha mais práticas para redução do consumo ou da poluição,
porque, senão, a falta não vai ter auxiliado na mudança e vai continuar sendo
algo presente”.
“Não tem como
a pessoa não saber
que está impactando
o ambiente, mas a
maioria das
pessoas não se
sensibiliza com
isso, não se
preocupa”
Victor Marques
engenheiro ambiental.
Tecnologia
versus consciência
O ano de 2015 será marcado por mais um intenso
debate sobre as questões do meio ambiente. Entre 30 de novembro e 11 de
dezembro, mais uma Conferência das Partes (COP21) promovida pela ONU vai buscar
ações de combate às transformações do clima mundial. A Cúpula Climática de
Paris tem como principal objetivo limitar o aquecimento global e evitar que a
temperatura suba 2°C acima dos níveis pré-indústriais. A reunião também vai
discutir medidas para substituir o Protocolo de Kioto a partir de 2020.
Déborah Danowski, diretora do Departamento de
Filosofia da PUC-Rio, escreveu um artigo denominado “Um mundo vivo”, onde
debate sobre a Encíclica Laudato Si’. Segundo
Déborah o texto do Papa Francisco foi recebido com grande entusiasmo por quem
se preocupa com a perspectiva ambiental, mas há cientistas e estudiosos que
acreditam em soluções tecnológicas através do capitalismo industrial. Isso é
totalmente oposto ao regresso à simplicidade pregado pelo líder da Igreja
Católica em sua carta sobre a Casa Comum.
Para o engenheiro ambiental Victor Marques,
reverter a cultura do descarte da nossa sociedade não é tarefa fácil. Uma vez
que o capitalismo está presente na sociedade há séculos e a preocupação
ambiental apenas algumas décadas. Ele acredita que a voz de uma figura
importante como o Papa Francisco é importante para a causa ambiental.
“A Igreja tem que fazer seu papel porque ela é
uma grande formadora de opinião. É muito importante que o Papa continue tocando
nessa temática e incentivando o desenvolvimento de novas filosofias para mudar
um pouco a cultura das novas gerações, porque as gerações mais antigas foram
criadas nessa cultura do consumismo e do não reaproveitamento”.
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