terça-feira, 6 de outubro de 2015

Mundo de olhos fechados para o desastre

                                                                                                                                                    Sociedade não acredita na catástrofe ambiental que está por vir

                                                                            Danielle Chan   





Vivemos hoje um drama moderno. Não são apenas os especialistas ambientais que estão preocupados com o meio ambiente. Até o Papa Francisco mostrou-se apreensivo com a situação ambiental. A Encíclica Laudato Si’, escrita pelo Pontífice em junho deste ano, alerta sobre como a humanidade precisa, urgentemente, cuidar planeta, ou seja, a Casa Comum.

Segundo Francisco, em seu texto, a sociedade precisa mudar os hábitos de consumo e abrir os olhos para a real condição no planeta, pois “ao mesmo tempo cresce uma ecologia superficial ou aparente que consolida um certo torpor e uma alegre irresponsabilidade. Como frequentemente acontece em épocas de crises profundas, que exigem decisões corajosas, somos tentados a pensar que aquilo que está a acontecer não é verdade”.

Para o engenheiro ambiental Victor Salazar Marques, 29 anos, a população tem total consciência do que acontece com o meio ambiente e sabe que existe uma preocupação latente com o equilíbrio da natureza sendo discutida. Mas para que haja ação, ele acredita que primeiro é preciso mudar o que há de intrínseco no ser humano, como vaidade, orgulho e egoísmo.

“As pessoas não querem deixar de consumir para repartir com o próximo, querem consumir cada vez mais. Isso é ganância. Algumas situações vão ser irreversíveis e as pessoas só vão se preocupar quando for tarde demais, como está acontecendo agora com a extinção de algumas espécies animais e vegetais”, alerta Marques.

Ausência de comoção

Na psicologia existe uma teoria chamada Modelo de Kuber-Ross que explica os estágios pelos quais passam as pessoas que enfrentam tragédias. Talvez seja por isso que a preocupação ambiental na sociedade esteja ainda no primeiro passo do seu Modelo Kuber-Ross: a negação.

Todos os dias, ao lavar o jardim, a dona de casa Vânia Soares, 64 anos, usa a mangueira para empurrar as folhas que caem dos seus vasos de plantas e aproveita para varrer a rua com a mangueira. Além disso, troca a água da piscina de plástico da neta no quintal todo dia no verão. A falta de sensibilização ambiental de Vânia está ligada a uma infância sem um sistema de abastecimento.

“Naquele tempo, não tinha essa de que a água ia acabar. Até porque eu mal tinha água na torneira. Às vezes caía num dia e ficava dois sem um pingo d’água e já ajudava a minha mãe a pegar um pouco de água com o balde na cabeça”, desabafa a dona de casa.

Ainda de acordo com o engenheiro Victor Marques existe uma diferença muito grande entre a consciência ambiental e a prática dela, chamada de sensibilização ambiental.

“Não tem como a pessoa não saber que está impactando o ambiente, mas a maioria das pessoas não se sensibiliza com isso, não se preocupa. E essa sensibilização só acontece nos momentos de crise. É importante para que isso acelere a mudança de cultura da pessoa e que ela tenha mais práticas para redução do consumo ou da poluição, porque, senão, a falta não vai ter auxiliado na mudança e vai continuar sendo algo presente”.
  

“Não tem como
a pessoa não saber
que está impactando
o ambiente, mas a
maioria das
pessoas não se
sensibiliza com
isso, não se
preocupa”

Victor Marques
engenheiro ambiental.


Tecnologia versus consciência

O ano de 2015 será marcado por mais um intenso debate sobre as questões do meio ambiente. Entre 30 de novembro e 11 de dezembro, mais uma Conferência das Partes (COP21) promovida pela ONU vai buscar ações de combate às transformações do clima mundial. A Cúpula Climática de Paris tem como principal objetivo limitar o aquecimento global e evitar que a temperatura suba 2°C acima dos níveis pré-indústriais. A reunião também vai discutir medidas para substituir o Protocolo de Kioto a partir de 2020.

Déborah Danowski, diretora do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, escreveu um artigo denominado “Um mundo vivo”, onde debate sobre a Encíclica Laudato Si’. Segundo Déborah o texto do Papa Francisco foi recebido com grande entusiasmo por quem se preocupa com a perspectiva ambiental, mas há cientistas e estudiosos que acreditam em soluções tecnológicas através do capitalismo industrial. Isso é totalmente oposto ao regresso à simplicidade pregado pelo líder da Igreja Católica em sua carta sobre a Casa Comum.

Para o engenheiro ambiental Victor Marques, reverter a cultura do descarte da nossa sociedade não é tarefa fácil. Uma vez que o capitalismo está presente na sociedade há séculos e a preocupação ambiental apenas algumas décadas. Ele acredita que a voz de uma figura importante como o Papa Francisco é importante para a causa ambiental.

“A Igreja tem que fazer seu papel porque ela é uma grande formadora de opinião. É muito importante que o Papa continue tocando nessa temática e incentivando o desenvolvimento de novas filosofias para mudar um pouco a cultura das novas gerações, porque as gerações mais antigas foram criadas nessa cultura do consumismo e do não reaproveitamento”.


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