Papa discute a questão hídrica e
critica a sociedade atual
critica a sociedade atual
A Encíclica Laudato Si’ (em português: Louvado sejas), escrita pelo Papa Francisco e lançada no dia 18 de junho, apresenta a discussão da crise hídrica sob diversos pontos de vista, sendo o de maior destaque uma chamada de atenção para os países mais desenvolvidos. Ele diz que os governantes desses países estão em dívida com os mais pobres e que, para saldar as dívidas, devem contribuir com a distribuição de água limpa de saneamento básico. O papa também usa o espaço para criticar os avanços tecnológicos e a falta de preocupação para com a natureza.
O papa faz
uma crítica geral aos cidadãos quanto à falta de educação para com questões
ambientais. Ele diz que há uma fraqueza da reação política internacional e uma
negação da sociedade diante de questões urgentes, como a crise hídrica
enfrentada atualmente. Sobre essa negação, ele explica que as pessoas ignoram a
profundidade dos problemas por não saber como reagir, ou o que fazer para
ajudar, ainda mais levando em conta que seus governantes não falam do assunto.
Quanto à
discussão da privatização da água, o pontífice garante que o acesso à água
potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal. Ele
diz que negar esse acesso é negar o direito à vida. Pessoas com acesso à água
sem tratamento estão suscetíveis às doenças causadas por microorganismos e
substâncias químicas.
O urbanista
Andre Angulo completa o ponto abordado pelo papa explicando que o tratamento do
esgoto também é importante. Ele diz que é preciso entender que não basta
distribuir água limpa, pois essa água é usada nas residências e se torna
esgoto. “O problema no Brasil é que temos um sistema de tratamento de esgoto
deficiente. O esgoto tem que ser tratado. Às vezes, doenças aumentam em
comunidades quando se implementa um sistema de água justamente porque não se
trata o esgoto também”, esclarece Angulo.
O papa
Francisco faz crítica ao uso da tecnologia, dizendo muitas vezes produtos são
criados para resolver problemas imediatos, porém, a longo prazo, afetam o meio
ambiente e são deixados de lado. Na encíclica, ele argumenta que, ao contrário
do ciclo natural, ao final do sistema industrial, as empresas ainda não
aprenderam a reutilizar e absorver os resíduos e escórias. O pontífice explica
que custa ao ser humano perceber que é tudo interligado e que, quando há
poluição em rios e florestas, isso quebra o funcionamento dos ecossistemas
naturais.
Há cidadãos
que não contrariam o papa e fazem o que estão ao seu alcance para melhor, além
da sua qualidade de vida, também a de todos ao seu redor. A estudante de
Engenharia Ambiental Letícia La Croix separa o seu lixo, faz parte de um
rodízio de carona coletiva na sua faculdade, e guarda embalagens em sua bolsa
até conseguir acesso a uma lixeira. “Eu acho que é o suficiente se todos
fizerem sua parte, mesmo que você ache insignificante. Um ‘bom dia’, um banho
rápido e uma andada no transporte coletivo já bastam. Acho que todos têm que
entender que o meio ambiente é um ser vivo, tanto como nós. Tem que haver o
respeito mútuo”, diz a estudante.
AQUECIMENTO GLOBAL E SOLUÇÕES
O papa
Francisco também fala do aquecimento global. Ele explica que o clima é um bem
comum, de todos e para todos e que as mudanças climáticas são um problema
global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas e políticas,
constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade.
“Provavelmente os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os
países em vias de desenvolvimento”, ele escreve.
Para
amenizar essa realidade, a Conferência do Clima, em Paris, no final de 2015,
promete discutir e gerar soluções justamente para reduzir o aquecimento global.
São esperadas entre 40 e 50 mil pessoas e os 195 países que a ratificaram, além
da União Européia. O objetivo será firmar um pacto, através da ONU, que visa
combater as transformações pelas quais passa o clima mundial.
O acordo de
Paris determinará todos os esforços para contenção das emissões de gases do
efeito estufa, com previsão de efeito a partir de 2020. O evento será entre 30
de novembro e 11 de dezembro de 2015.
“Eu acho que a água
deve ser considerada
um bem para a
dignidade humana,
ou seja, não deve ser
encarada como produto,
mas como bem mineral
de patrimônio
universal.”
Andre Ângulo, urbanista
Soluções para o dia a dia
O urbanista
Andre Ângulo atualmente trabalha como museólogo do Museu da República. Em 2010,
ele criou o Programa Socioambiental, que é um conjunto de ações articuladas
fundamentado em diversas perspectivas com vistas a desenvolver processos de
ressignificação do patrimônio. Além disso, o projeto estabelece novos padrões
em conformidade com os dispositivos legais da área ambiental. Ele acredita que
a solução para os problemas ambientais estão ainda no boca-a-boca, e que a
sociedade de consumo é uma ameaça ao futuro.
Qual você acha que seria uma possível solução quanto ao
descaso às questões sociais no Brasil?
Sobre questões como a dificuldade de levar à sério a
política das latas de lixo, eu só consigo enxergar saídas com algumas soluções
conjugadas, como um amplo processo educativo usando os museus, as escolas, os
grandes eventos, essas coisas, e, com um pesado sistema de fiscalização e
multas. A gente vê que o Programa Lixo Zero da Prefeitura do Rio realmente
deixou a cidade mais limpa, mais por conta do medo das pessoas em serem
multadas do que consciência. Agora, também acho que devem haver peças
publicitárias mais diretas, e que deve ocorrer um trabalho de sensibilização porta
a porta. Agentes deveriam ir às casas das pessoas e informando como deve ser os
procedimentos de separação entre recicláveis e não recicláveis. No boca-a-boca
mesmo. Essa questão passa também por uma consciência sobre o consumo, o
brasileiro, em geral, é muito consumista, e essa é uma dimensão que precisa ser
pensada.
E o que você acha que as pessoas podem fazer no dia a dia
para melhorar sua qualidade de vida?
Acho que as pessoas devem rever os seus hábitos de consumo
em geral. Se perguntarem: para que trocar de celular se o seu está funcionando?
Para que usar o seu carro se você pode ir andando ou pegar o metrô? Assim como
diversas outras questões que a pessoa individualmente acha que não vai afetar o
coletivo, mas a soma desses erros individuais afeta sim. A ligação clandestina
de esgoto nas águas pluviais, jogar um cigarro no chão, deixar a luz acesa todo
o tempo – tudo isso afeta o meio ambiente.
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