Texto mescla argumentos religiosos e científicos
A
encíclia do Laudato Sí escrita pelo Papa Francisco e publicada em junho deste
ano reforça a importância de atenção ao meio ambiente e alerta para o risco de
deterioração não só ambiental, como também humana, que podemos enfrentar caso
não sejam feitos esforços para reverter a situação. O documento é uma carta pontifícia
redigida pelo Papa que posiciona a Igreja Católica em relação a determinado
tema.
Segundo a análise da diretora do departamento
de filosofia da PUC-Rio, Déborah Danowski, a crítica à noção de que a única
forma de a humanidade progredir é por meio do capitalismo industrial acelerado
é um dos maiores méritos do texto. A filósofa listou quatro pontos relevantes na
encíclica: a junção entre a preocupação com a Terra e a preocupação com a
desigualdade social; a criação de um discurso voltado para crentes e não
crentes; a importância de escutar populações locais e a ênfase ao princípio de
precaução, reconhecendo os avanços científicos, mas indagando a absolutização
do paradigma tecnoeconômico.
Mas para o geógrafo Caio Siqueira ainda não é possível afirmar que a ação humana
interfere sobre o aquecimento global, já que pesquisas e dentro da geologia e
da climatologia comprovam que dentro do tempo geológico que a terra existe a
temperatura global mudou diversas vezes. Já a estudante de arquitetura Hannah
Silva acredita no impacto do homem sobre a natureza e procura diminuir ao
máximo esse efeito negativo com ações que vão desde a alimentação, que não
inclui carnes, até pequenas tarefas do dia a dia, como utilizar bolsas
retornáveis em vez de sacolas plásticas.
Encíclica e COP 21
O principal apelo na encíclica do Papa Francisco é o
reconhecimento da ameaça que estamos oferecendo ao planeta e a posterior tomada
de atitudes que contribuam para amenizar a crise citada. No capítulo um ele
reconhece que mudança é inerente ao sistema social, mas que “a velocidade que
hoje impõe as ações humanas contrasta com a lentidão natural da evolução
biológica”. Quanto à questão da água, Francisco sinalizou sobre a tendência à
privatização do recurso e as consequências de tal ato aos menos favorecidos.
Ele reafirmou que o acesso à água potável é “um direito humano essencial,
fundamental e universal” e que negar a água é negar o direito à vida.
O que se espera é que a encíclica possa influenciar a
próxima Conferência do Clima de 2015 (COP 21), que será realizada em dezembro,
em Paris. A conferência reunirá os 196 países integrantes da ONU com o objetivo
de gerar acordos que diminuam a emissão de gases poluentes para frear o aumento
da temperatura em 2°C até 2100. A programação do encontro já inclui a voz dos
segmentos sociais: no dia 12 de dezembro está marcada “a última palavra”, uma
grande marcha final da sociedade civil em Paris que pretende demonstrar a
vontade social de propor soluções para o problema.
“Na sociedade em que
vivemos
não vemos
muitas
possibilidades
de
manter um
desenvolvimento
sustentável
sem
cortar os níveis
de produção
e
de consumo”
Geógrafo
fala sobre questão ecológica
O geógrafo Caio
Siqueira opinou, de forma moderada, sobre o aquecimento global, enfatizando
que, até agora, só podemos comprovar a interferência do homem sobre os
microclimas. Porém, ressaltou a necessidade de diminuir o consumo para
minimizar as desigualdades socioeconômicas existentes.
Repórter: Na sua percepção, é possível compatibilizar o
respeito à natureza com o nosso atual sistema econômico? Socialmente falando,
quais são os mais afetados pela agressão ambiental?
Caio
Siqueira: Na sociedade em que vivemos, uma sociedade do
consumo, não vemos muitas possibilidades de manter um desenvolvimento
sustentável sem cortar os níveis de produção e de consumo. A sociedade
capitalista sempre desenvolveu a desigualdade entre as pessoas e povos. A
globalização é um processo desse desenvolvimento desigual entres os diferentes
tipos de sociedade e de países. Os avanços da tecnologia, por exemplo, não são
homogêneos no mundo. Vemos uma grande desigualdade gerada a partir da
globalização, pois essa desigualdade é necessária para a proliferação dessa
forma de sociedade. Portanto, não existe uma forma de manter esse modelo de
desenvolvimento para acabar com a desigualdade entre os países e pessoas. A
única forma seria conscientizando e educando as pessoas para diminuírem o
consumo.
Repórter: Qual é a sua opinião sobre os céticos que criticam
os ambientalistas e defendem que o aquecimento global é um fenômeno natural?
Siqueira:
A minha posição em relação ao aquecimento global é que é, sim, um fenômeno
natural. Existem pesquisas e dentro da geologia e da climatologia, que
comprovam que dentro do tempo geológico que a terra existe, a temperatura
global da terra mudou diversas vezes. Em momentos de resfriamento e de
aquecimento. A influência humana nesse tempo geológico é muito pequena, mais ou
menos dois mil anos, sendo que as grandes atividades de exploração da natureza
só começaram há 200 anos com as revoluções industriais. É claro que a influência
do homem no planeta transforma o espaço também. Porém não podemos afirmar que
esse aquecimento é ocasionado pela ação humana. Dentro da geografia, a ação
humana interfere extremamente nos microclimas. Portanto, minha visão é de que
ainda não podemos provar uma influencia humana no aquecimento global, mas
podemos afirmar que elas agem sobre os microclimas.
Repórter: Se pudesse dar apenas uma sugestão para os
interessados em colaborar para um desenvolvimento sustentável, qual seria ela?
Siqueira:
No cenário em que vivemos, a forma mais prática é aumentar a reciclagem e
diminuir os desperdícios.
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