quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Conversão do catolicismo em “ecologismo”


A Encíclica de Francisco convoca a sociedade a pensar a questão ambiental

                                                                                                                            Mariá Bottini



Basta, porém, olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum”. Foi com o objetivo de disseminar esse alerta que o Papa Francisco escreveu, em junho deste ano, sua mais nova obra dirigida à humanidade: a Encíclica Laudato Si’. Na carta, o pontífice não se limita à plateia católica e pretende atingir todos aqueles que habitam e desfrutam do planeta. Francisco despe-se do manto religioso e faz um chamado intimista a cada indivíduo.

            Para o professor de direito ambiental da PUC-Rio Fernando Walcacer, a resolução dos problemas ambientais vai muito além do credo. Segundo ele, a Encíclica foi recebida com alegria não só pelos católicos, como por todos aqueles que se preocupam com o meio ambiente. “Penso que ele [papa] quis dizer - de forma muito acertada - que a questão socioambiental interessa muito de perto, e diretamente, não apenas aos católicos, mas a todos os seres humanos, tanto às gerações atuais como às gerações futuras. Enfrentá-la exige o engajamento de todos, pouco importando nacionalidades, crenças, etnias”, destacou Fernando. A estudante de jornalismo Maria Eduarda Menegassi, apesar de não ser católica, também encarou com entusiasmo o manifesto papal. . “A consciência ambiental é o primeiro passo para construir uma mudança efetiva na sociedade. Fico feliz de ver a Igreja, importante formador de opinião, se manifestar efusivamente em prol da causa”, analisou a jovem.

Agora, à vista da deterioração
global do ambiente,
quero dirigir-me
a cada pessoa que habita 
neste planeta.
Nesta encíclica,
pretendo especialmente
entrar em diálogo com todos
acerca da nossa
casa comum.”

                                                                      Papa Francisco

  A carta do papa reacendeu as discussões acerca do perigo da degradação ambiental. É certo que muitos grupos já se uniam para debater e tentar encontrar saídas para o tema. A novidade da encíclica, no entanto, é a expansão do debate a nível mundial, com a forte repercussão e representatividade da figura de Francisco. A COP 21 - Conferência do Clima - que será realizada em Paris, no fim do ano, será o primeiro grande evento sobre o tema após a Laudato Si’. Nela, se reunirão representantes dos principais países com o objetivo de pautar ações para preservar o meio ambiente.

Apesar de todo o esforço desenvolvido por entusiastas do desenvolvimento sustentável, há pessoas que defendem o progresso acima do meio ambiente. Para a estudante de engenharia Jéssika Almeida, por exemplo, a tecnologia é promotora do bem-estar social e não deve ser suprimida. “O problema é que muita gente que diz lutar pelo meio ambiente é hipócrita. Criticam a construção de usinas hidrelétricas, mas não querem ficar sem luz nas suas casas ou deixar de comprar determinada coisa porque as fábricas não estão funcionando”, argumentou a jovem.

Na Encíclica, porém, o Papa Francisco reconhece o poder transformador da tecnologia. Como está destacado, por exemplo, no capítulo III: “A tecnologia deu remédio a inúmeros males, que afligiam e limitavam o ser humano. Não podemos deixar de apreciar e agradecer os progressos alcançados especialmente na medicina, engenharia e comunicações”. O que o pontífice salienta, porém, é que todo esse aparato tecnológico deve ser usado em prol da preservação. Para isso, Francisco convida a sociedade a procurar novas formas de encarar a economia e o progresso. “Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade de outra forma, recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objetivos arrasados por um desenfreamento megalómano”, afirma.




A COP 21 e o histórico da mobilização internacional para o meio ambiente

 Desde a ECO-92, muitos países e organismos internacionais têm se empenhado em promover debates em âmbito mundial sobre os problemas do meio ambiente. Nessa primeira tentativa de mobilização ecológica, ficou acordado a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança no Clima, que previa a redução na emissão de gases poluentes e a ajuda financeira de países ricos aos mais pobres.
O baixo grau de envolvimento nos compromissos assumidos no Rio de Janeiro em 1992 foi discutido cinco anos mais tarde na Conferência Rio+5, realizada em Nova York. O fórum abriu espaço para a aprovação do Protocolo de Kyoto, alguns meses mais tarde, que definiu metas obrigatórias de redução nas emissões de gases de efeito estufa para 37 países industrializados.
Na sequência, foi realizada a Rio+10, na África do Sul. A Conferência estipulou novas metas para combater a perda de biodiversidade até 2010 e reduzir à metade a população sem acesso à água potável até 2015.
Sem propostas concretas acerca da questão do clima, a Rio+20, realizada em 2012, novamente no Rio de Janeiro, foi duramente criticada pelos mais engajados. De concreto, a Conferência aprovou o documento O Futuro que queremos, considerado conservador e superficial aos olhos dos negociadores europeus.
Espera-se que o apelo de Francisco na Laudato Si’ seja uma forte influência para aquecer as discussões e chegar a metas concretas na COP 21, que será realizada em Paris ainda este ano. A comunidade ecológica aguarda esperançosa pelas resoluções do encontro.

Um comentário:

  1. Francisco - figura bem quista por católicos, evangélicos, hindus, judeus, etc - empresta sua credibilidade para debater um assunto de tanta relevância, mas de tão pouco espaço midiático: a ecologia. O papa faz um chamado intimista aos habitantes da "casa comum" para que se envolvam na luta em prol do desenvolvimento sustentável e da consciência ambiental. Ótimo trabalho realizado pelas turmas de Edição em Jornalismo Impresso da PUC-Rio. Parabéns a todos os envolvidos.

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