Consumo e a falta de
conscientização preocupam
Assim como uma andorinha só não faz
verão, apenas um pequeno grupo de pessoas adotar hábitos sustentáveis não vai
mudar o planeta. Na encíclia Laudato Si', lançada em 18 de junho, o
papa Francisco ressalta a crise ecológica e demonstra preocupação com a Terra e
com os problemas decorrentes da globalização. Para Pedro Fasura, coordenador do
laboratório de biodiversidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
o pontífice acerta ao falar na carta sobre o consumismo das populações e que
ações alternativas estão longe de ser suficientes para resolver os problemas.
“O uso de ecobags, bicicletas e a
adoção de caronas compartilhadas colabora para a natureza, mas ainda falta a
compreensão para a gravidade do problema. Seria ótimo se conseguíssemos viver
com todas as alternativas em cidades grandes como São Paulo e Rio de Janeiro”,
acredita o biólogo.
Apesar da divulgação internacional, a
carta do papa não agrada a todos. Lorena Carvalho, estudante de medicina,
afirma que a crise ecológica não é tão grave como apontada na encíclica e que a
agricultura gasta mais água do que qualquer família ou fábrica. “Não sou
desinteressada no futuro do ambiente, mas me importo mais com outras coisas,
como o meu momento de relaxamento no banho após um dia cansativo”, relata a
estudante. Para Lorena, filha de um empresário do ramo de saúde, a correria
diária é um dos motivos para não conseguir parar e pensar em falta de água,
reciclagem e poluição.
Comprometimento e conscientização
Preocupado com o futuro do meio
ambiente nos próximos anos, o papa Francisco ressalta em vários pontos da
encíclica a necessidade de uma conscientização real das pessoas. Para ele, o
gasto só aumenta, mesmo que muitos percebam o que está acontecendo. “Cresceu a
sensibilidade ecológica das populações, mas é ainda insuficiente para mudar os
hábitos nocivos de consumo, que não parecem diminuir; antes, expandem-se e
desenvolvem-se”, escreve o pontífice na carta.
Agendada para começar no dia 30 de
novembro, a Conferência do Clima em Paris promete discutir as ações práticas em
relação ao meio ambiente. Com participação de 196 nações, a reunião quer firmar
um pacto através da ONU (Organização das Nações Unidas) para combater as
transformações pelas quais passa o clima mundial. Para Pedro Fasura, a discussão
é importante, mas está atrasada: “Se observarmos os níveis de crescimento dos
países, desenvolvidos ou não, é perceptível que o clima está entrando em
colapso. As populações aumentam sem controle nenhum e enquanto isso a
fiscalização na natureza é praticamente nula”.
Em nota oficial, Laurent Fabius,
ministro dos Negócios Estrangeiros e do Desenvolvimento Internacional da
França, afirma que, apesar de ser uma tarefa difícil, a Conferência de Paris
vai buscar firmar um acordo climático universal. “A realização é muito
complicada, pois é necessário que cada país se comprometa, a começar pelos
países mais poluidores”, diz Fabius.
“Em 1970 tínhamos
alta diversidade
de espécies no
país e hoje temos
poucas. Algumas
desapareceram por
completo do meio
ambiente ou não
deixaram filhotes”
Pedro Fasura
Biólogo
Biólogo
O
difícil problema da poluição
Pedro Fasura é graduado em ciências biológicas, mestre em biodiversidade
e doutor em zoologia pela UFRJ. Apaixonado pela natureza desde pequeno, o
biólogo coordena hoje um dos laboratórios da Universidade e passou meses entre
o Oiapoque e o Chuí pesquisando novas espécies. Daqui alguns anos, espera que o
país tenha consciência de cada ato contra a natureza.
Qual é o principal problema hoje no meio ambiente?
Com certeza é a poluição. Nós precisamos de um sistema de saneamento que
funcione. A sociedade produz muito lixo e a reciclagem poderia diminuir essa
quantidade, mas antes também precisaríamos conscientizar a população.
Tem algum outro problema que você vê como prioridade para resolver?
O crescimento desordenado das cidades e o desmatamento também merecem
atenção especial. Muito do que é destruído hoje é por causa de construções
irregulares. Temos um programa para vigiar a Amazônia que funciona por três
semanas e logo depois já estão cortando madeira. No Rio de Janeiro, basta andar
na Zona Oeste para ver prédios onde deveriam preservar árvores.
A poluição das águas no Rio de Janeiro tem solução?
Tem solução, mas dá muito trabalho. Alguns países da Europa tinham rios
e lagos mais poluídos que os nossos e o governo conseguiu recuperá-los com a
conscientização da população e o tratamento pesado de água. Se eles conseguiram
o Brasil também consegue, basta querer e investir.
Quantos animais são prejudicados com a poluição das águas?
Todos os animais são prejudicados, direta e indiretamente. Em 1970,
tínhamos
alta diversidade de espécies no país e hoje temos poucas. Algumas desapareceram por completo do meio ambiente ou não deixaram filhotes. A água é a chave essencial para o ecossistema. Todos os organismos precisam de água. Além dos animais nós também somos prejudicados todos os dias.
alta diversidade de espécies no país e hoje temos poucas. Algumas desapareceram por completo do meio ambiente ou não deixaram filhotes. A água é a chave essencial para o ecossistema. Todos os organismos precisam de água. Além dos animais nós também somos prejudicados todos os dias.
Ótima entrevista! Saber que alguns países da Europa tinham rios tão poluídos quantos os nossos, e mesmo assim conseguiram mudar esse cenário, nos dá esperanças!
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