quinta-feira, 8 de outubro de 2015

'Laudato Si' questiona o capitalismo


Encíclica verde dá o norte para a educação ambiental
Raíza Garcia




            A polêmica lançada pela Laudato Si', escrita pelo Papa Francisco, não poderia vir em um momento diferente. Apenas nesta década a população assistiu a verdadeiras catástrofes no que diz respeito ao clima do planeta Terra. A Encíclica traz à tona um problema que atinge a todos: o consumo desenfreado está destruindo os recursos naturais. Apesar de pisar no calo da sociedade atual, Laudato Si' teve uma boa aceitação no cenário internacional, provocando discussões a respeito do tema.

            O jornalista Justin Gillis, do The New York Times, afirma que a Encíclica “é uma advertência profética sobre o perigo de ignorar a crise ecológica”. Segundo ele, o papa conseguiu conciliar dados científicos com a avaliações sobre a configuração da sociedade atual, principalmente quando afirma que são os mais pobres que carregam o peso da poluição. O Santo Padre avalia não só a questão técnica que envolve a discussão ambiental. Ele proporciona uma reflexão humana, que vai além das consequências óbvias sobre os efeitos que as atividades agressivas à “casa comum” podem trazer. Ele salienta, ainda, a ligação entre pobreza e fragilidade do planeta.

            O Papa Francisco faz duras críticas ao sistema econômico e a forma como os recursos do planeta estão sendo rapidamente dizimados em favor do progresso. Conceito este que, segundo o papa, deve ser redefinido em prol da natureza e não da população que demanda cada vez mais aparatos tecnológicos.

            - Ao contrário, o sistema industrial, no final do ciclo de produção e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos e escórias. Ainda não se conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras – aponta o papa em trecho da carta.


            Um novo olhar

            Mesmo sendo uma questão que tem ganhado cada vez mais espaço, o assunto ainda é desconsiderado por muitos. O jornalista Eduardo Pegurier, editor de O Eco, diz que o site foi criado para suprir a falta de cobertura jornalística sobre o meio ambiente. Na opinião dele, a falta de informação e punição por crimes ambientais ainda é um dos grandes problemas a serem enfrentados. O incentivo do governo para a fiscalização de florestas protegidas também é um empecilho para o cumprimento da legislação ambiental.

            - O Brasil tem uma legislação muito boa no papel, mas que na prática recebe muito pouco dinheiro do governo. Os órgãos que cuidam da áreas protegidas, no caso, o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, que foi criado há alguns anos, recebe um orçamento muito minguado. Então nem o governo prestigia os órgãos ambientais que ele tem nem a legislação, que oi criada em um momento que o outro lado  ou seja, as pessoas que são impactadas pela legislação, que são os grandes empreendimentos, o agronegócio etc, talvez eles não tivessem percebido o quanto iam ter que se adequar.

            Segundo Pegurier, as conferências internacionais que buscam acordos para regulamentar a questão ambiental são importantes, pois dão visibilidade à causa, mesmo que não cheguem a uma conclusão.

            - Elas geram discussão, dão um norte, criam certos acordos que, pelo menos os países se comprometem a cumprir, mesmo que não cumpram.


“A gente está acostumado
a ter água sempre.
 A demanda está aumentando,
 você tem cada vez mais 
 casas bem equipadas,  consumindo
mais água. Estamos demandando
cada vez mais esses recursos
esperando que todo ano chova,
só que não é assim”

Eduardo Pegurier
Jornalista

           

            O surgimento de iniciativas que buscam diminuir o desperdício e aumentar o consumo consciente mostram que é possível diminuir a produção de lixo. Para reduzir os danos, algumas atitudes simples podem fazer a diferença. Há diversos movimentos que vão ao encontro dessa ideia, como o Free Your Stuff e o Simply & Co, que ajudam os participantes a encontrarem estabelecimentos que vendem produtos a granel com embalagens retornáveis.

            Há três anos Bernardo Feitosa, publicitário, mudou o estilo de vida: parou de comer carne vermelha e alimentos de origem animal e consome somente produtos orgânicos, entre outras medidas. Ele acredita que a mudança de comportamento é essencial.

            - É inaceitável ver a quantidade de alimentos descartados simplesmente porque eles não estão bonitos para a vista do consumidor. O mesmo acontece com o vegetarianismo, que vem crescendo ano após ano, não só no Brasil, como no mundo. Se pensarmos que a população mundial cresce em larga escala, não é difícil imaginar que uma hora os recursos acabam e medidas como essas vão ser questões não de capricho, mas de sobrevivência.

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