quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Papa prega o dever de cuidar da “casa comum"

Larissa Fontes





     Crise hídrica, aquecimento global, desmatamento, poluição. Essas palavras estão ainda mais presentes no vocabulário mundial. Em meio a esse cenário cada vez menos azul e verde, o Papa Francisco publicou a sua primeira Encíclica, Laudato Si, que propõe uma reflexão sobre o tema. A carta tem trazido, não só para os cristãos, mas para todos os cidadãos do mundo, novos debates e uma forma de repensar o estilo de vida global. O desejo do Pontífice é enfatizar a necessidade de começarmos a proteger nossa “casa comum” e, mais do que isso, propor soluções reais para revertermos esse quadro enquanto é tempo. O cientista político Ricardo Ismael acredita que o Papa Francisco se tornou, mais do que um líder católico, uma liderança mundial. Para ele, uma voz tão poderosa trazer essa discussão vai gerar, não só repercussão, mas frutos. “Seja no mundo global ou no âmbito da Igreja, ele ter elegido esse tema só traz mais importância para a questão”, afirma.
     O estilo de vida capitalista é pautado no consumo impensado em prol do bem estar e do status. Em sua carta, o Papa Francisco escreve que “a vida consumista do ser humano, incentivada pelos mecanismos da economia globalizada atual, tende a homogeneizar as culturas e a debilitar a imensa variedade cultural, que é um tesouro da humanidade”. A estudante de arquitetura da UFRJ Elisa Losada acredita que essa situação pode ser revertida com a mudança de hábitos diários. Elisa traz em seus projetos uma visão mais sustentável para o dia a dia, como prega o Papa Francisco na Laudato Si. Desde o primeiro traço no papel, até o último tijolo na parede o processo de construção pode interferir diretamente no meio e as consequências podem ser graves, segundo Elisa. “Muitas tecnologias consumistas usadas em construções acabam com o meio ambiente”, explica a estudante.

Sustentabilidade global
Projetos mais verdes

     Conforto ambiental, terraço-jardim, ecoloft. É provável que a maioria das pessoas não saiba o que esses termos significam, mas Elisa e os colegas de classe se empenham para que eles façam cada vez mais parte do vocabulário geral. Os três são conceitos sustentáveis de arquitetura e que podem amenizar os impactos ambientais. São pequenas mudanças que, a longo prazo, fazem toda a diferença, segundo a estudante. “Essas ideias implicam em uma nova cultura. Temos que aprender a repensar nossa rotina desde o chão que estamos pisando”, explica. O Papa Francisco também acredita nisso e escreve em sua carta que “é muito nobre assumir o dever de cuidar da criação com pequenas ações diárias, e é maravilhoso que a educação seja capaz de motivá-las até dar forma a um estilo de vida”.
     E repensar essas ações diárias deve ser preocupação global. Por isso, entre os dias 30 de novembro e 11 de dezembro deste ano, vai ser realizada em Paris A Conferência do Meio Ambiente. A Cúpula se mostra como uma esperança para esse problema que aflige a humanidade com a possibilidade de um novo acordo que interfira diretamente nas políticas internacionais. Pensando na humanidade como um todo, e não pontos isolados, a reunião terá como objeto um consenso que implica em medidas drásticas, principalmente para os países mais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa e outros tipos de poluição. O encontro deve propor, mais do que isso, planos a longo prazo para uma melhor qualidade de vida na Terra em contato com a natureza e os recursos naturais.

“É muito nobre assumir
 o dever de cuidar da
 criação com pequenas
 ações diárias,
e é maravilhoso que a
educação seja capaz
de motivá-las até dar
 forma a um estilo de vida”.
Papa Francisco

O desafio é “mais do que social”

      “Para que se quer preservar hoje um poder que será recordado pela sua incapacidade de intervir quando era urgente e necessário fazê-lo?”, indaga o Papa Francisco no primeiro capítulo da Laudato Si. A liderança do chefe católico ultrapassa as barreiras da religião e passa pela política internacional. Para o cientista político Ricardo Ismael, a questão é mais delicada e não é tão simples de ser concretizada. “Quem vai topar fazer um acordo, estabelecer metas a serem cumpridas e traduzir em política pública?”, questiona.
     A proposta trazida pelo Papa Francisco em sua primeira Encíclica é chamar atenção para os cuidados que a sociedade deve ter com o meio ambiente.  Ao longo da carta, o Papa passeia por questões que atravessam esse tema, entre elas, a política. Ricardo Ismael aponta que esse é o maior desafio a ser enfrentado por todos que habitam a “casa comum”. Segundo o professor, o coletivo ainda não conseguiu avançar a um ponto onde as grandes nações consigam fechar um acordo e assumir essa responsabilidade.
     Por outro lado, Ismael acredita que a Encíclica vai promover maior visibilidade para esse problema que todos sabem que existe, mas ninguém se move para solucionar. Para ele, o Papa Francisco se tornou uma liderança mundial, não só pela capacidade de comunicação, mas pelas questões que ele está abordando. A repercussão da Laudato Si ultrapassa as fronteira da Igreja e chega ao âmbito global. “Ele ter elegido a questão ambiental como tema de sua primeira carta vai certamente trazer mais importância para esse tema, o que é muito bom”, afirma.

     O professor também destaca dois pontos fundamentais onde a Encíclica entra na política mundial. O primeiro vértice desse triângulo é debater o modelo de desenvolvimento.  “É pensar: desenvolvimento para quem? Como vamos nortear os países?”, aponta o cientista. A segunda bola levantada por ele é o trabalho. Ismael lembra que a sociedade já é um espaço carente de trabalho para todos os indivíduos e que muitos não têm emprego e nem renda estável. “Acho que é um ponto que vai crescer muito na agenda depois da publicação da carta. O ponto fundamental é descobrir como gerar trabalhos para todos, sem que esses degradem o meio ambiente”, afirma. 

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