Crise
hídrica, aquecimento global, desmatamento, poluição. Essas palavras estão ainda
mais presentes no vocabulário mundial. Em meio a esse cenário cada vez menos azul
e verde, o Papa Francisco publicou a sua primeira Encíclica, Laudato Si, que propõe uma reflexão
sobre o tema. A carta tem trazido, não só para os cristãos, mas para todos os
cidadãos do mundo, novos debates e uma forma de repensar o estilo de vida
global. O desejo do Pontífice é enfatizar a necessidade de começarmos a
proteger nossa “casa comum” e, mais do que isso, propor soluções reais para
revertermos esse quadro enquanto é tempo. O cientista político Ricardo Ismael acredita
que o Papa Francisco se tornou, mais do que um líder católico, uma liderança
mundial. Para ele, uma voz tão poderosa trazer essa discussão vai gerar, não só
repercussão, mas frutos. “Seja no mundo global ou no âmbito da Igreja, ele ter
elegido esse tema só traz mais importância para a questão”, afirma.
O
estilo de vida capitalista é pautado no consumo impensado em prol do bem estar
e do status. Em sua carta, o Papa Francisco escreve que “a vida consumista do
ser humano, incentivada pelos mecanismos da economia globalizada atual, tende a
homogeneizar as culturas e a debilitar a imensa variedade cultural, que é um
tesouro da humanidade”. A estudante de arquitetura da UFRJ Elisa Losada
acredita que essa situação pode ser revertida com a mudança de hábitos diários.
Elisa traz em seus projetos uma visão mais sustentável para o dia a dia, como
prega o Papa Francisco na Laudato Si.
Desde o primeiro traço no papel, até o último tijolo na parede o processo de
construção pode interferir diretamente no meio e as consequências podem ser
graves, segundo Elisa. “Muitas tecnologias consumistas usadas em construções
acabam com o meio ambiente”, explica a estudante.
Sustentabilidade
global
Projetos mais verdes
Conforto
ambiental, terraço-jardim, ecoloft. É provável que a maioria das pessoas não
saiba o que esses termos significam, mas Elisa e os colegas de classe se
empenham para que eles façam cada vez mais parte do vocabulário geral. Os três
são conceitos sustentáveis de arquitetura e que podem amenizar os impactos
ambientais. São pequenas mudanças que, a longo prazo, fazem toda a diferença,
segundo a estudante. “Essas ideias implicam em uma nova cultura. Temos que
aprender a repensar nossa rotina desde o chão que estamos pisando”, explica. O
Papa Francisco também acredita nisso e escreve em sua carta que “é muito nobre
assumir o dever de cuidar da criação com pequenas ações diárias, e é
maravilhoso que a educação seja capaz de motivá-las até dar forma a um estilo
de vida”.
E
repensar essas ações diárias deve ser preocupação global. Por isso, entre os
dias 30 de novembro e 11 de dezembro deste ano, vai ser realizada em Paris A
Conferência do Meio Ambiente. A Cúpula se mostra como uma esperança para esse
problema que aflige a humanidade com a possibilidade de um novo acordo que
interfira diretamente nas políticas internacionais. Pensando na humanidade como
um todo, e não pontos isolados, a reunião terá como objeto um consenso que
implica em medidas drásticas, principalmente para os países mais responsáveis
pela emissão de gases de efeito estufa e outros tipos de poluição. O encontro
deve propor, mais do que isso, planos a longo prazo para uma melhor qualidade
de vida na Terra em contato com a natureza e os recursos naturais.
“É muito nobre assumir
o dever de cuidar da
criação com pequenas
ações diárias,
e é maravilhoso que a
educação seja capaz
de motivá-las até dar
forma a um estilo de vida”.
o dever de cuidar da
criação com pequenas
ações diárias,
e é maravilhoso que a
educação seja capaz
de motivá-las até dar
forma a um estilo de vida”.
Papa
Francisco
O
desafio é “mais do que social”
“Para que
se quer preservar hoje um poder que será recordado pela sua incapacidade de
intervir quando era urgente e necessário fazê-lo?”, indaga o Papa Francisco no
primeiro capítulo da Laudato Si. A
liderança do chefe católico ultrapassa as barreiras da religião e passa pela
política internacional. Para o cientista político Ricardo Ismael, a questão é
mais delicada e não é tão simples de ser concretizada. “Quem vai topar fazer um
acordo, estabelecer metas a serem cumpridas e traduzir em política pública?”,
questiona.
A
proposta trazida pelo Papa Francisco em sua primeira Encíclica é chamar atenção
para os cuidados que a sociedade deve ter com o meio ambiente. Ao longo da carta, o Papa passeia por
questões que atravessam esse tema, entre elas, a política. Ricardo Ismael
aponta que esse é o maior desafio a ser enfrentado por todos que habitam a
“casa comum”. Segundo o professor, o coletivo ainda não conseguiu avançar a um
ponto onde as grandes nações consigam fechar um acordo e assumir essa
responsabilidade.
Por
outro lado, Ismael acredita que a Encíclica vai promover maior visibilidade
para esse problema que todos sabem que existe, mas ninguém se move para
solucionar. Para ele, o Papa Francisco se tornou uma liderança mundial, não só
pela capacidade de comunicação, mas pelas questões que ele está abordando. A
repercussão da Laudato Si ultrapassa
as fronteira da Igreja e chega ao âmbito global. “Ele ter elegido a questão
ambiental como tema de sua primeira carta vai certamente trazer mais
importância para esse tema, o que é muito bom”, afirma.
O
professor também destaca dois pontos fundamentais onde a Encíclica entra na
política mundial. O primeiro vértice desse triângulo é debater o modelo de
desenvolvimento. “É pensar:
desenvolvimento para quem? Como vamos nortear os países?”, aponta o cientista.
A segunda bola levantada por ele é o trabalho. Ismael lembra que a sociedade já
é um espaço carente de trabalho para todos os indivíduos e que muitos não têm
emprego e nem renda estável. “Acho que é um ponto que vai crescer muito na
agenda depois da publicação da carta. O ponto fundamental é descobrir como
gerar trabalhos para todos, sem que esses degradem o meio ambiente”, afirma.
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