Em encíclica, pontífice pede
ação urgente de governantes e sociedade
A Encíclica Laudato Si',
divulgada pelo Papa Francisco, em junho deste ano, levantou questões importantes
sobre o meio ambiente e enfatizou a necessidade urgente de que medidas sejam
tomadas para evitar problemas climáticos ainda mais graves. O pontífice faz um alerta
para que não só católicos, mas toda a comunidade humana reflita sobre aspectos
ambientais que afligem o planeta atualmente. Para o vice-diretor do Núcleo de
Meio Ambiente da PUC-Rio (NIMA), Fernando Walcacer, a encíclica de Francisco
coloca o dedo na ferida, mostrando a todas as pessoas de maneira consequente e
bem elaborada o momento complicado em que vivemos. “Nenhum ambientalista
poderia colocar qualquer reparo nesse texto divulgado pelo Papa. É uma visão
bastante abrangente, falando sobre questões econômicas, sobre o predomínio de
um regime capitalista que abandonou completamente a ideia de proteção da
natureza. Trata-se de um regime econômico que marginaliza cada vez mais os
pobres.”
Na carta, o pontífice
destaca a necessidade de que as pessoas mudem seus estilos de vida, de consumo
e de produção em prol de um planeta mais sustentável. No entanto, grande parte
da sociedade não está disposta a fazer essas mudanças. A estudante de
enfermagem Luana Silveira, por exemplo, não pensa em abrir mão do prazer de um
banho demorado ou do conforto do uso de sacolas plásticas para ajudar o planeta.
“Existem
coisas que facilitam demais o nosso dia a dia e não quero deixar de tê-las na
minha rotina só porque preciso pensar no planeta”, ressaltou.
Clima:
grande preocupação
Entre os mais variados
assuntos relacionados ao meio ambiente presentes na encíclica, as constantes
mudanças climáticas vêm mobilizando e preocupando o Papa e toda a sociedade.
Fernando Walcacer lembra que os relatórios internacionais mostram com
frequência que o aquecimento do clima tem se processado de maneira alarmante,
com a temperatura do planeta podendo aumentar em 5,6 graus centígrados até o
final do século. “Se a temperatura se elevar dessa maneira, podemos ter uma
dificuldade muito grande da sobrevivência humana no planeta”, alertou. Na carta,
Francisco é enfático ao ressaltar que tornou-se urgente o desenvolvimento de
políticas capazes de reduzir a emissão de gases de efeito estufa.
Possíveis maneiras de mudar
essa realidade climática serão discutidas no encontro de representantes de mais
de 196 países na Conferência sobre o Clima (COP21). A reunião promovida pela
ONU será realizada em Paris no fim deste ano e é vista como uma forma de levar
nações responsáveis por uma grande parcela de emissão de gases de efeito estufa
a estabelecerem metas de redução dessa quantidade. O objetivo da ONU é limitar a elevação do aquecimento global em até 2ºC até 2020.
“A COP21 a meu ver
é a última esperança
de que as nações
entrem em um acordo
que permita reduzir
o ritmo de emissão
desses gases
de efeito estufa”
Fernando
Walcacer
Vice-diretor
do NIMA
“Água
não pode ser problema aqui”
Para o professor Fernando
Walcacer, a questão da água é o problema mais alarmante no Brasil atualmente.
Fernando acredita que essa situação não poderia acontecer, já que o nosso país
é abençoado pela natureza tendo a maior reserva hídrica do mundo. “Não há
nenhum país do mundo que tenha tanta quantidade de água como o Brasil, mas
parte dessa água ou é poluída ou está sofrendo por escassez.” Segundo o
vice-diretor, a falta de planejamento de governos e as poucas medidas de
controle de desmatamento de bacias, de nascentes e de matas só pioram o
problema.
No entanto, a questão da
escassez ou falta de água não é um problema que se restringe ao Brasil. Na
Encíclica Laudato Sì, o Papa
Francisco ressalta que a procura por esse bem natural excede a oferta
sustentável, o que pode gerar graves consequências a curto e longo prazo. Para
Francisco, a água potável e limpa é indispensável para sustentar os
ecossistemas terrestres e aquáticos, além de ser um direito de todos nós. “O
acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e
universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição
para o exercício dos outros direitos humanos.” O Papa ainda observa que se não
forem tomadas medidas urgentes, podemos sofrer com uma aguda escassez de água
dentro de poucas décadas.
Transformar pequenos hábitos
cotidianos pode ser uma maneira de agir para a prevenção de futuros problemas
com a falta de água no planeta. O estudante de cinema da PUC-Rio Patrick
Seabra, de 26 anos, tenta mudar a rotina de sua casa através das suas atitudes.
Enquanto espera a água do chuveiro esquentar, Patrick enche um balde com aquela
água e a utiliza no vaso sanitário. Além disso, ele toma banhos curtos e ensina
seus dois filhos a sempre fechar a torneira durante a escovação dos dentes. O
estudante pretende reduzir em 20% o volume de água que usa mensalmente. “Se
cada um fizer a sua parte, podemos sim evitar problemas graves envolvendo a
água. Não podemos nos acomodar.”
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