quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O alerta de Papa Francisco




Em encíclica, pontífice pede ação urgente de governantes e sociedade 

Caroline Pecoraro 





   A Encíclica Laudato Si', divulgada pelo Papa Francisco, em junho deste ano, levantou questões importantes sobre o meio ambiente e enfatizou a necessidade urgente de que medidas sejam tomadas para evitar problemas climáticos ainda mais graves. O pontífice faz um alerta para que não só católicos, mas toda a comunidade humana reflita sobre aspectos ambientais que afligem o planeta atualmente. Para o vice-diretor do Núcleo de Meio Ambiente da PUC-Rio (NIMA), Fernando Walcacer, a encíclica de Francisco coloca o dedo na ferida, mostrando a todas as pessoas de maneira consequente e bem elaborada o momento complicado em que vivemos. “Nenhum ambientalista poderia colocar qualquer reparo nesse texto divulgado pelo Papa. É uma visão bastante abrangente, falando sobre questões econômicas, sobre o predomínio de um regime capitalista que abandonou completamente a ideia de proteção da natureza. Trata-se de um regime econômico que marginaliza cada vez mais os pobres.”

     Na carta, o pontífice destaca a necessidade de que as pessoas mudem seus estilos de vida, de consumo e de produção em prol de um planeta mais sustentável. No entanto, grande parte da sociedade não está disposta a fazer essas mudanças. A estudante de enfermagem Luana Silveira, por exemplo, não pensa em abrir mão do prazer de um banho demorado ou do conforto do uso de sacolas plásticas para ajudar o planeta. “Existem coisas que facilitam demais o nosso dia a dia e não quero deixar de tê-las na minha rotina só porque preciso pensar no planeta”, ressaltou.

Clima: grande preocupação

     Entre os mais variados assuntos relacionados ao meio ambiente presentes na encíclica, as constantes mudanças climáticas vêm mobilizando e preocupando o Papa e toda a sociedade. Fernando Walcacer lembra que os relatórios internacionais mostram com frequência que o aquecimento do clima tem se processado de maneira alarmante, com a temperatura do planeta podendo aumentar em 5,6 graus centígrados até o final do século. “Se a temperatura se elevar dessa maneira, podemos ter uma dificuldade muito grande da sobrevivência humana no planeta”, alertou. Na carta, Francisco é enfático ao ressaltar que tornou-se urgente o desenvolvimento de políticas capazes de reduzir a emissão de gases de efeito estufa.

     Possíveis maneiras de mudar essa realidade climática serão discutidas no encontro de representantes de mais de 196 países na Conferência sobre o Clima (COP21). A reunião promovida pela ONU será realizada em Paris no fim deste ano e é vista como uma forma de levar nações responsáveis por uma grande parcela de emissão de gases de efeito estufa a estabelecerem metas de redução dessa quantidade. O objetivo da ONU é limitar a elevação do aquecimento global em até 2ºC até 2020.


“A COP21 a meu ver
 é a última esperança
 de que as nações
 entrem em um acordo
 que permita reduzir
 o ritmo de emissão
 desses gases
 de efeito estufa”

Fernando Walcacer
Vice-diretor do NIMA



“Água não pode ser problema aqui”

     Para o professor Fernando Walcacer, a questão da água é o problema mais alarmante no Brasil atualmente. Fernando acredita que essa situação não poderia acontecer, já que o nosso país é abençoado pela natureza tendo a maior reserva hídrica do mundo. “Não há nenhum país do mundo que tenha tanta quantidade de água como o Brasil, mas parte dessa água ou é poluída ou está sofrendo por escassez.” Segundo o vice-diretor, a falta de planejamento de governos e as poucas medidas de controle de desmatamento de bacias, de nascentes e de matas só pioram o problema.

     No entanto, a questão da escassez ou falta de água não é um problema que se restringe ao Brasil. Na Encíclica Laudato Sì, o Papa Francisco ressalta que a procura por esse bem natural excede a oferta sustentável, o que pode gerar graves consequências a curto e longo prazo. Para Francisco, a água potável e limpa é indispensável para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos, além de ser um direito de todos nós. “O acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos.” O Papa ainda observa que se não forem tomadas medidas urgentes, podemos sofrer com uma aguda escassez de água dentro de poucas décadas.

     Transformar pequenos hábitos cotidianos pode ser uma maneira de agir para a prevenção de futuros problemas com a falta de água no planeta. O estudante de cinema da PUC-Rio Patrick Seabra, de 26 anos, tenta mudar a rotina de sua casa através das suas atitudes. Enquanto espera a água do chuveiro esquentar, Patrick enche um balde com aquela água e a utiliza no vaso sanitário. Além disso, ele toma banhos curtos e ensina seus dois filhos a sempre fechar a torneira durante a escovação dos dentes. O estudante pretende reduzir em 20% o volume de água que usa mensalmente. “Se cada um fizer a sua parte, podemos sim evitar problemas graves envolvendo a água. Não podemos nos acomodar.”

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