terça-feira, 6 de outubro de 2015

Preocupação com a Casa Comum




Texto do Papa faz crítica dura aos atuais modelos de desenvolvimento

Raissa Kubotta






As discussões acerca da temática da ecologia são recorrentes nas últimas décadas. Agora, ganham fôlego com o lançamento da Laudato Si' – sobre o cuidado da casa comum. O texto assinado pelo Papa Francisco apresenta uma visão mais integral de ecologia e define a mobilização como única alternativa para a saúde da Terra. Esse posicionamento do Papa, ao ser bem recebido por jovens, dá esperança ao futuro do planeta. O estudante Octavio Ouriques é um dos que encara com naturalidade o importante papel que cada pessoa exerce no cuidado com o meio ambiente, porque desde criança o entende como uma rede. Por isso, age localmente, pensamento de forma global no reflexo de suas ações.

A encíclica define a atividade humana como principal causador dos problemas ambientais, agravado pelo uso intensivo de combustíveis fósseis, nos últimos dois séculos. Esse ponto coloca também em questão o papel central estabelecido pelas potências mundiais na situação ambiental do planeta. Segundo o engenheiro ambiental Pedro Casemiro, notam-se poucos avanços nessa temática, porque os interesses econômicos são prioridade frente à preocupação com o cuidado com a casa comum. “Há irresponsável e desleixo com os problemas que ameaçam a saúde do planeta. Os governos e as grandes companhias não dão ouvidos à comunidade científica, e apesar de trabalharem com especialistas, minimizam os alertas”. Assim, um pensamento otimista para o futuro fica ainda mais distante, já que com atual modelo de produção e de desenvolvimento, não há alternativas.


Paris: nova tentativa

            Em mais uma tentativa de avanço nas questões ambientas, a Conferência Climática de Paris deve reunir cerca de 50 mil pessoas e mais de 95 nações, entre novembro e de dezembro de deste ano. O objetivo do evento é firmar um pacto, através da Organização das Nações Unidas, que vise combater as transformações pelas quais passa o clima mundial e definir estratégias para o futuro ambiental do planeta.

Com previsão de efeito a partir de 2020, o acordo de Paris determinará todos os esforços para contenção das emissões de gases do efeito estufa. O fenômeno é dos principais causadores do desequilíbrio climático do planeta, já que faz com que secas, inundações e tempestades, por exemplo, sejam cada vez mais frequentes. O objetivo da ONU, para os próximos anos, é limitar a elevação do aquecimento global em até 2ºC, em níveis pré-industriais. Mas apesar desse compromisso, a organização declarou que já está claro que as promessas que serão realizadas na conferência para reduções de emissões serão muito fracas para avançar para a meta da instituição.

Cientistas afirmam que ao considerar os níveis de crescimento atuais, o clima terrestre pode entrar em colapso em pouco tempo. Por isso, é cada vez mais importante a concretização das medidas. Postergar essas ações aumentarão os custos e complexidade da situação. Nas próximas décadas, os investimentos no setor de energia alcançarão grandes montantes e a soma necessária para uma transição para energias limpas (não emissoras de gases de efeito estufa) seria parte significativa desse orçamento. 

Esperança num novo pensamento

Ao destacar a ação humana como causadora dos problemas ambientais, a encíclica do Papa aponta para o papel exercido pelas grandes corporações multinacionais e pelos governos de grandes países. Segundo o texto, a economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. Assim, ele critica que as mesmas “forças invisíveis” sejam capazes de regular a economia e também a situação ambiental.

O engenheiro ambiental Pedro Casemiro, apesar de trabalhar numa empresa anglo-holandesa do setor de energia e petróleo, se coloca de acordo com as reflexões propostas pelo Papa. Segundo ele, admitir a atividade humana como principal agente da crise ecológica é fundamental para planejar ações conscientes, mesmo em companhias como a que trabalha. O engenheiro afirma que a produção energética não precisa ser contrária à consciência ecológica. Para ele, além das fontes e recursos renováveis, as ações que envolvem produtos nocivos ao meio ambiente, podem ser executadas com planejamento e foco em sustentabilidade.

O panorama de crise já estabelecido revela também a fraqueza da reação política internacional, que para o Papa, também está submissa à tecnologia e à finança. Laudato Sí afirma que o interesse econômico, em diversas situações, chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular informações. Sobre essa abordagem, Casemiro é mais reservado, mas não esconde o poder do mercado. “Não há como negar que o interesse econômico é prioridade para os governos. A preocupação com os índices quantitativos que provoca às legislações frágeis e preocupação ecológica superficial.” Ainda segundo ele, é nessas brechas que empresas de exploração de petróleo, por exemplo, tornam-se vilões da questão ambiental. “Diferentemente dos governos, as corporações tem objetivo declarado de gerar lucro. O mercado exige aproveitar as oportunidades, mesmo que interfiram na saúde ambiental do planeta”.


Ainda assim, bem como o Papa Francisco, Pedro Casemiro tem uma postura de esperança. Como muitas transformações já estão ocorrendo e a conscientização e o interesse público só crescem, há razão para acreditar num novo tipo de pensamento. 


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