Falta de planejamento governamental: maior problema
Não são poucos os produtos midiáticos e
culturais produzidos a partir da falta d’água: livros, documentários, ficções e
reportagens demonstram cada um a seu modo, como seria um mundo sem água. Mas o
mais interessante é perceber que o problema talvez não seja a falta d’água, em
si, mas a falta de planejamento estrutural para lidar com os mananciais e
lençóis freáticos. O professor da UERJ e assessor de Meio Ambiente da
Presidência do Conselho Regional de Engenharia Arquitetura e Agronomia do
Estado do Rio de Janeiro, Adacto Ottoni, diz que o problema não é chover pouco.
Outros lugares do mundo chovem bem menos e não sofrem da forma que sofremos com
a falta de chuva: “Se nossas bacias fossem bem preparadas, talvez nem
tivéssemos essa crise”.
O
professor realizou um estudo de conclusão de curso com alunos da UERJ e eles
observaram que a vazão do Rio Parnaíba do Sul, que corta os estados do Rio de
Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, reduziu em um terço, de 300 metros cúbicos
por segundo para 100. “Em tempos de
crise hídrica, o assunto mais importante que a gente não vê na mídia é o alto
grau de degradação das bacias hidrográficas dos mananciais. Cerca de 60% da
bacia do Parnaíba do Sul esta desmatada. Impermeabilizada”, completa Ottoni.
O
Brasil, principalmente o Sudeste, sofre por problemas relacionados à água há
gerações, seja pela falta ou pela grande quantidade que cai em alguns meses do
ano. Segundo o assessor, com planejamento estrutural e obras eficazes é
possível controlar tanto um problema, quanto o outro. “São Paulo, Minas e Rio
têm que investir na recuperação das bacias. Enquanto não privilegiarmos obras
de recarga da água subterrânea, reter água de chuva em valas para controlar as
enchentes e, ao mesmo tempo, segurar a água nos períodos de pouca chuva, eu não
vejo luz no fim do túnel”, ratifica ele. O professor completa dizendo que é
preciso mais cuidado e atenção com o que deveria ser um bem comum: “As bacias
do Parnaíba e do Cantareira tinham que ser tesouros”.
O
estudante de administração Rafael Cardoso de Melo também acredita que a falta
de planejamento é o grande responsável pelos problemas relacionados à falta
d’água. Diferente do professor Adacto Ottoni, que acredita na importância de se
modificar os hábitos para que eles se tornem mais sustentáveis, Rafael não vê
diferença significativa numa consciência individual. “Isso é uma maneira de
alienar as pessoas, com essas campanhas de conscientização que não expõe o real
motivo de toda essa crise ambiental. As grandes empresas da agropecuária, por
exemplo. Elas consomem quantidades absurdas de água, mas ninguém fala disso
porque elas são importantes para o sistema econômico”, afirma ele.
Preocupação mundial
Com tantos problemas dentro e fora de
casa, é difícil imaginar que algo esteja sendo feito. Mas está: a Conferência
Climática de Paris está prevista para os meses de novembro e dezembro deste ano
e promete reunir cerca de 50 mil pessoas, de mais de 95 nações, na capital da
França. O objetivo é firmar um pacto, através ONU, que vise combater
as transformações pelas quais passa o clima mundial. Será a cúpula climática
com maior presença de participações oficiais, desde Copenhague, em 2009.
A Conferência tem aval do UNFCCC
(Convenção-quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas). Com
previsão de efeito a partir de 2020, o acordo vai determinar os esforços
para contenção das emissões de gases do efeito estufa que. Essa
instabilidade faz com que problemas ambientais sejam cada vez mais comuns, além
de provocar o aumento do nível dos mares.
O objetivo da ONU, para os próximos
anos, é limitar a elevação do aumento da temperatura em até 2ºC, isto é,
níveis pré-indústria. Cientistas dizem que, a continuar pelos níveis de
crescimento atuais, o clima terrestre pode entrar em colapso.
Na Encíclica “Sobre o cuidado da casa
comum”, lançada em junho deste ano, o Papa Francisco apontou que um problema
social, relacionado às populações pobres dos países subdesenvolvidos, pode ser
gerado a partir dos problemas climáticos: “As mudanças climáticas são um
problema global (...) constituindo atualmente um dos principais desafios para a
humanidade. Provavelmente os impactos mais sérios recairão, nas próximas
décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento”.
Ainda há preocupação
A tomada de consciência ambiental se faz
cada vez mais necessária na atual conjuntura do país: no início do ano,
sofremos com uma seca contundente e alguns estados, principalmente o de São
Paulo, ainda colhem os frutos dessa época. O momento não poderia ser mais oportuno
para que o debate acerca da preservação do meio ambiente seja tratado como
prioridade social. Muitas pessoas acreditam que, uma vez que os hábitos de
alguém tenham sido formados, é quase impossível que eles sejam transformados
através dos anos. Mas isso não é bem verdade.
A policial civil Marlene Martins, de 57 anos, é a prova
de que é possível mudar os hábitos ecológicos em qualquer momento da vida. Até
os 40 anos ela não pensava em separar materiais recicláveis e economizar água.
Hoje, como ela mesma diz, é insistente com todos os que a rodeiam sobre a
economia de folhas brancas de papel, por exemplo.
Mas esse é apenas uma das muitas ações
que ela mantem no dia a dia para, de alguma forma, fazer a parte dela. “É como
aquela história do passarinho que queria apagar o incêndio da floresta levando
água no bico: ele sabia que não poderia cuidar de um problema tão grande
sozinho, mas ele estava fazendo a parte dele”, conta Marlene. Entre as atitudes
da policial, a mais recorrente é a separação do lixo reciclável, seco, do lixo
não reciclável e orgânico.
Na encíclica “Sobre o cuidado da casa
comum”, lançada em junho deste ano, o Papa Francisco afirma a necessidade de
educar as próximas gerações sobre a consciência ambiental. No tópico dois, ele
diz que “nos países que deveriam realizar as maiores mudanças nos hábitos de
consumo, os jovens têm uma nova sensibilidade ecológica e um espírito generoso,
e alguns deles lutam admiravelmente pela defesa do meio ambiente, mas cresceram
num contexto de altíssimo consumo e bem-estar que torna difícil a maturação
doutros hábitos. Por isso, estamos perante um desafio educativo”.
Marlene também acredita nisso. Segundo
ela, a educação ambiental deve ser ensinadas às crianças nas escolas e em casa,
para que, dessa forma, as próximas gerações do país tratem nossa natureza de
forma completamente diferente: “Não adianta cobrar quando a pessoa já estiver
adulta. Criança é como folha em branco: a gente pode escrever coisas boas ou
ruins, depende da gente”.
“Grandes
empresas
da
agropecuária
consomem
quantidades
absurdas
de água,
mas
ninguém
fala
disso porque
são importantes
para
o sistema
Rafael
Cardoso de Melo
estudante de administração
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