sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Alunos de edição vão cuidar da nossa casa comum



Rose Esquenazi
Prof. de Edição de Jornalismo Impresso da PUC-Rio

Fotos do blog: Rose Esquenazi/Turquia

newsinfo.inquirer.net



     Aceitamos o desafio da diretora do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, Angeluccia Habert, e lemos a Encíclica do Papa Francisco: Laudato Si'. A partir das denúncias, ensinamentos e constatações, entrevistamos pessoas comuns para verificar o que pensam sobre o futuro do planeta. Depois, falamos com especialistas, biólogos, engenheiros, professores, designers e arquitetos. 

     Debatemos textos e vimos filmes que mostram a realidade: sabemos que temos que agir imediatamente. Cada um no seu tempo, mas firme no propósito de reduzir a poluição, a emissão de gases e a destruição dos recursos. Os trabalhos estão muito bons e refletem o olhar de jovens conscientes, inteligentes e humanos. A casa é nossa e vamos tentar arrumá-la da melhor maneira possível.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Medidas para salvar a Casa Comum

'Laudato Sí' reforça o debate sobre o aquecimento global
                                                                         
                                                                                                          Gisele Ferreira






       As críticas feitas na encíclica Laudato Si' publicada pelo Papa Francisco propõe um debate sobre o meio ambiente e uma “revolução cultural” para salvar o planeta. O texto que critica os poderes políticos, econômicos e sociais faz um apelo aos países mais ricos para que criem um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

     Mas não é só aos representantes dos países a quem Francisco se dirige em seu texto. Como o próprio Papa deixa claro logo nas primeiras linhas: “a todo o mundo católico e a todas as pessoas de boa vontade”. A designer de interiores Fernanda Rebelo, de 23 anos, é uma dessas pessoas. Ela trabalha com projetos de design social que transforma estruturas utilizando apenas materiais sustentáveis. “O planeta já vem respondendo agressivamente aos maus tratos. O uso de materiais renováveis é como um pequeno passo, que se feito por cada indivíduo, começará a contribuir para melhorar não só do planeta mas o ambiente a sua volta, reduzindo o impacto ambiental. Reutilizando os materiais muitas vezes, as pessoas economizam, customizam e se divertem, criando objetos personalizados e artesanais.”

     Em meio à discussão sobre os problemas climáticos que ocorrem em todo mundo, ainda há quem acredite que o aquecimento global seja um exagero. Esse é o caso do estudante de engenharia Rafael Alves. Aos 23 anos, o rapaz não se preocupa com o futuro: “Já não tem um monte de ecochato que se preocupa em dobro? Bom que se preocupa por mim”. A carta papal tenta alcançar pessoas como Rafael e incentivar iniciativas como as da Fernanda. Além de unir as religiões para salvar a nossa Casa Comum.

 “O uso de materiais
renováveis é como
um pequeno passo,
que se feito por
 cada indivíduo,
começará a
contribuir para
melhorar o ambiente
 a sua volta”

Fernanda Rebello
 Designer de interiores



COP 21: esperança para o meio ambiente


    Na 21ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 21), líderes dos países devem assinar um novo acordo para limitar o aumento da temperatura do planeta. O encontro que acontecerá em Paris, entre o dia 30 de novembro e 11 de dezembro, é o mais importante para decidir o rumo do aquecimento global. O evento vai reunir mais 40 mil participantes de mais de 200 países e cerca de 3 mil jornalistas.
    
     Os debates e as tentativas de negociações sobre as medidas climáticas a serem tomadas costumam ser marcados por rixas entre os países que participam da reunião. O que pode mudar esse ano. Desde o lançamento da encíclica de Francisco, criou-se uma expectativa de que o capital político do pontífice ajude a encaminhar as negociações que irão acontecer daqui a dois meses. Ao deixar o termo técnico de lado, o Papa Francisco apresentou de forma didática os efeitos do aquecimento global e foi muito elogiado pelos cientistas. Uma das grandes discussões nas últimas conferências é a adequação das medidas a todos os países presentes.
    
    Em seu texto, o Papa entende que não há uma única fórmula para combater o aquecimento global.  “Não se pode pensar em receitas uniformes, porque há problemas e limites específicos de cada país ou região. Também é verdade que o realismo político pode exigir medidas e tecnologias de transição, desde que estejam acompanhadas pelo projeto e a aceitação de compromissos graduais vinculativos”, explica. 

Construções sustentáveis: menor impacto ambiental


    - O planeta está entrando em colapso aos poucos e as pessoas estão precisando se readaptar cada vez mais. Como uma das medidas para minimizar o impacto ambiental, a designer de interiores Fernanda Rebelo acredita que a arquitetura verde pode contribuir positivamente. O esgotamento de recursos naturais no planeta já começa a dar sinais e as pessoas precisam começar a se readaptar a uma nova estrutura de produção e consumo.

     Para Fernanda, a arquitetura sustentável é um caminho. O viés ecofriendly, a utilização de materiais renováveis nas construções e outras medidas sustentáveis ajudam na redução de impactos ambientais. A vida útil que costuma ser muito mais alta do que projetos comuns ainda não parece ser suficiente para que o país dê a atenção necessária e invista nesse tipo de arquitetura.

     A encíclica Laudato si' do Papa Francisco lançada no dia 18 de junho sobre o meio ambiente refletiu sobre os modelos de produção e de consumo nas estruturas de poder que hoje regem as sociedades. A designer Fernanda confirma esse fato na prática e diz que os custos desses materiais renováveis ainda são muito caros no Brasil porque não há investimento do governo.

    - Aqui no Brasil as tecnologias bem desenvolvidas ainda não estão disponíveis porque o mercado está fechado, a tributação é muito alta, e não há incentivos nessa área. Se o governo tornasse mais acessível a entrada dessas tecnologias, talvez muitas pessoas aderissem e assim começariam a realizar pequenos benefícios para a sociedade.”

     Para o Papa Francisco, isso não é um problema exclusivo do Brasil. Em todos os países, os governos ainda ficam reticentes quanto a investimentos que protejam o meio ambiente. “Os resultados requerem muito tempo e comportam custos imediatos com efeitos que não poderão ser exibidos no período de vida dum governo. Por isso, sem a pressão da população e das instituições, haverá sempre relutância a intervir, e mais ainda quando houver urgências a resolver.”

    A quantidade de energia armazenada se um sistema de aquecimento solar estivesse disponível em um Rio de Janeiro que quase sempre beira aos 40 graus poderia fazer as contas de luz caírem expressivamente. Fernanda afirma que, apesar de ser uma tecnologia cara, o benefício se dará em longo prazo porque vai se economizar muito mais.

A pior crise ambiental dos últimos tempos

'Tudo está conectado'



Especialista alerta sobre a importância da consciência ambiental

Caroline Borges 








     Na encíclica Laudato Si', a primeira sobre o meio ambiente, o Papa Francisco levanta a questão de que “nunca é demais insistir que tudo está interligado”. Não se pode relacionar a natureza sem a sociedade. As razões, pelas quais um lugar é destruído na lógica ambiental, exigem uma análise do funcionamento da sociedade, da economia, do comportamento e das maneiras de entender a realidade. A engenheira ambiental Ágatha Tommasi, de 25 anos, ressalta que não se deve pensar nos rios poluídos, sem preocupar-se com as mudanças climáticas. Para ela, estamos em um momento em que é preciso refletir a fim de aumentar a consciência ambiental na sociedade.

     Para Ágatha, a carta do Papa veio em um momento chave, tendo em vista a 21ª Conferência do Clima (COP 21) que será no final de novembro, em Paris. A engenheira ambiental, que representa a América Latina e Caribe no Parlamento Mundial da Juventude pela Água, acredita que mostrar a posição da igreja também é uma forma de pressão política. Com o intuito de aumentar a participação jovem na política internacional, ela ajudou a criar o Parlamento Nacional da Juventude pela Água.

     - Percebi que o nosso continente é o único que ainda não tem uma rede de jovens atuante em prol do meio ambiente. O fato é contraditório, pois temos a maior parte das águas doces superficiais do mundo: 12% delas estão no Brasil. O país com dimensões continentais, biodiversidade rica, biomas distintos e diversas bacias hidrográficas precisa ter a sua própria rede de jovens. Tendo isto em vista, a Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH) deu o apoio institucional para criarmos o Parlamento Nacional (PNJA).

     No texto Um mundo vivo, Déborah Danowski, diretora do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, contrapõe as ideias da Laudato Sí com o Manifesto Ecomodernista. Enquanto na encíclica se fala que a natureza tem um valor intrínseco em que nada é desprezível, os autores do Manifesto criaram o conceito de “descolamento”, que aborda a questão da tecnologia atingindo um estado que, em breve, superará seus custos materiais e os impactos ambientais.



“O nosso
continente
 é o único 
que ainda 
não tem
 uma rede de
 jovens atuantes
em prol do
 meio ambiente”
Ágatha Tommasi
Engenheira ambiental
 

     “Estaria assim realizado o sonho antrópico dos Modernos, o de um pós-ambientalismo onde o homem se verá circundado, sustentado apenas por si mesmo. Não explicam, é claro, onde iremos guardar o lixo nuclear. Nem o que faremos todos quando não houver mais peixes nos mares, quando as secas e inundações tiverem arrasado regiões ou países inteiros, ou quando a Floresta Amazônica, transformada progressivamente em savana, tiver sofrido um incêndio de proporções inimagináveis", escreveu Déborah.

     Os ecomodernistas acreditam que a tecnologia irá ajudar na diminuição dos impactos ambientais, enquanto para Weiler Filho, professor de Fotojornalismo da PUC-Rio, pequenas atitudes diárias já fazem a diferença.
     - Às vezes, eu entro no elevador da PUC e espero as pessoas falarem em que andar elas vão. Normalmente, se eu vou a um andar e o elevador não for parar no meu, eu desço no andar que parar e subo ou desço o lance de escadas para o elevador não parar apenas para uma pessoa.

     O fotógrafo ainda revela que costuma pegar o produto que está mais perto de ser consumido na prateleira do mercado, justamente, porque as pessoas preferem comprar o que dura mais uma semana.

Participação na COP 21

     Entre 30 de novembro a 11 de dezembro, a engenheira Ágatha Tommasi estará presente na COP 21, em Paris. Com a participação de 196 países, a conferência internacional tem o objetivo de firmar um novo acordo para diminuir as emissões de gases estufa, com a intenção de substituir o Protocolo de Kyoto. Ágatha irá participar do evento por meio de uma organização brasileira voltada para aumentar a influência dos jovens na política internacional, a Engajamundo, e pelo Parlamento Mundial da Juventude pela Água, do qual participa como representante da América do Sul e Caribe.

     Ela ficou responsável de fazer um levantamento da influência da água na América do Sul, Central e Caribe. O foco da engenheira ficou em quatro países: Brasil, Argentina, Barbados e Haiti. Segundo ela, é preciso envolver a problemática da água com as mudanças climáticas, que estão completamente conectados. Assim como o papa afirma na encíclica, que “é fundamental buscar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais”. Além desta questão, a COP 21 tem como temas principais a reafirmação do multilateralismo como espaço coletivo de tomada de decisões sobre um tema que atravessa fronteiras físicas e atmosféricas e as Contribuições Intencionais Nacionalmente Determinadas, chamadas de INDCs, que definem quanto, como e quando os países irão reduzir suas emissões.O Brasil ainda é um dos países que não apresentou o seu plano para a redução da emissão de gases.

Jovens atuam em prol da água

     Recém-formada pela PUC-Rio, Ágatha Tommasi se dedica no trabalho de aumentar a participação dos jovens nas políticas internacionais. Agora, ela é dona de uma nova conquista: a criação do Parlamento Nacional da Juventude pela Água (PNJA). Pensando, à princípio, no 8º Fórum Mundial de Água, que será no Brasil em 2018, a Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH), a Secretaria Internacional de Águas e Rede Brasil de os Organismos de Bacias Hidrográficas (REBOB) contribuíram para que essa iniciativa saísse do papel junto aos jovens.

     Segundo o Parlamento, o objetivo é remodelar o futuro tomando parte em discussões relacionadas à temática da água, enfatizar a importância dos jovens nos processos de tomada de decisões. Além disso, pretende criar e estimular plataformas de participação deles e levar o conhecimento em nível local, estadual, regional e nacional.

     Ágatha considera a inserção dos jovens no próximo Fórum um ganho significativo e conta quais são os planos para os próximos anos.

     - Estamos organizando eventos com o comitê organizador do próximo Fórum para os próximos três anos. Em todos eles, vai ter uma participação jovem. Nós queremos que a juventude entenda que o que estão discutindo também são problemas nossos. Nós queremos mostrar que o jovem também é o líder de amanhã. Nós podemos sim trazer conhecimento e consciência para as pessoas. Além disso, podemos também ter um espaço nas discussões políticas.

     Os jovens de todas as áreas de conhecimento e com diversas vocações e talentos são convidados a se candidatar. Os membros do Parlamento deverão ser facilitadores na criação de parcerias para o desenvolvimento e condução de atividades no âmbito local, regional e nacional, além de atuarem na formação de novas lideranças e em processos de mobilização social e educação científica e ambiental pelas águas.
     A engenheira enfatiza que a água faz parte de tudo e a escassez desse recurso é um grande problema. Para a especialista, a ONU tem um grande medo de que a água vire um motivo de guerra ou uma moeda de troca por ser precioso e escasso.

Encíclica mostra preocupação com o planeta



Especialista em paisagismo ambiental sugere mudança de hábito
Giulia Rotstein






            O Brasil encara uma crise hídrica sem precedentes. Esse é o cenário que estamos enfrentando há algumas décadas, mas que só agora tomou proporções gigantescas. A falta d’água sempre existiu, entretanto, a população tem sentido na pele ultimamente. O racionamento, já é uma realidade em algumas casas no interior de cidade de São Paulo, onde a situação da crise é extremamente frágil.


            Na Encíclica Laudato Si',  o Papa Francisco fala sobre a casa comum e aborda a situação alarmante em que o planeta se encontra. A impossibilidade de nos sustentarmos hoje em dia é bem visível, e a crise hídrica serviu para evidenciar ainda mais esse quadro. “O nível atual de consumo dos países mais desenvolvidos e dos setores mais ricos da sociedade, onde os hábitos de desperdiçar e jogar fora atingem níveis inauditos.” No trecho retirado da Encíclica fica claro a preocupação do Papa em relação à falta de resiliência do planeta.


            A professora de paisagismo ambiental Cecília Beatriz da Veiga Soares afirma que usa de seu curso para levar formas de evitar o desperdício e reaproveitar recursos naturais. “Paisagismo não é apenas para o embelezamento, no sentido decorativo, é imprescindível a preocupação com a qualidade de vida dos habitantes. Com a importância de preservar nosso planeta da destruição, o paisagismo deve abranger preservação e ecologia”, contou a paisagista.


            Além da situação da água no mundo, na Encíclica, o Papa também engloba uma questão muito importante que é pouco discutida. O fato de as pessoas mais pobres serem as primeiras a sofrerem com fragilidade do planeta. Em relação à falta d'água, os mais necessitados são também os mais prejudicados. Na maioria das vezes, a água nem chega até eles e, se chega, a qualidade é desumana. Na Encíclica, nos é mostrado como o estado que a água chega aos mais necessitados causa mortes. "Entre os pobres, são frequentes as doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por microrganismos e substâncias químicas. A diarreia e a cólera, consequências de poucos serviços de higiene e reservas de água inadequadas, constituem um fator significativo de sofrimento e mortalidade infantil."


            Sobre a falta d'água aqui no Brasil, Cecília disse que mudou alguns hábitos de sua rotina para que evitasse ainda mais o desperdício. Há muito tempo, ela já se preocupa com a situação do planeta e pensa no futuro de seus filhos e netos. 

     - É uma obrigação cuidarmos do desperdício de água. Com a falta de chuva devido ao desmatamento e os reservatórios muito abaixo da média, fomos obrigados a mudar alguns hábitos em nossas vidas. O triste é que ainda tem gente que acha que isso não é necessário -  afirmou a professora.



Paisagismo não é
apenas para o
embelezamento,
no sentido
decorativo,
é imprescindível a
preocupação com a
qualidade de vida
dos habitantes.”


Cecília Beatriz da Veiga Soares
Paisagista ambiental



COP 21: Buscando Soluções



            Desde o verão passado, os brasileiros vêm sentindo na pele os efeitos das mudanças climáticas. Na estação mais quente do ano, a chuva sempre refrescava no fim do dia, as conhecidas chuvas de verão. Entretanto, no verão de 2014 o cenário foi completamente diferente. As esperadas chuvas não vieram, trazendo assim o problema da falta d'água nos reservatórios da cidade de São Paulo. Quem diria que um dia, a terra da garoa estaria seca como o sertão do Nordeste.


            A professora Cecília Beatriz da Veiga Soares, que também é diretora da Sociedade dos Amigos do Jardim Botânico (SAJB), explica as medidas a serem tomadas para enfrentarmos essas mudanças. "Atualmente a população mundial começa a entender os efeitos das mudanças climáticas e cada país deve indicar agora o que está disposto a fazer. Em novembro, haverá uma reunião importantíssima, a Conferência do Clima, a COP 21 em Paris”.


            A Conferência acontece num momento crucial em que decisões devem ser tomadas efetivamente para que o pior não aconteça. O intuito é que com os acordos, o aquecimento global não ultrapasse a marca de 2 graus Celsius. Esperamos medidas drásticas e eficazes, ao contrário nossa sobrevivência no planeta será cada vez mais difícil.  




Extremos da mesma moeda


            O planeta vem passando por uma série de crises, uma desencadeando outra, e quase todas causadas por nós, seres humanos. Falta d'água, acúmulo e produção desenfreada de lixo, poluição sonora e do ar, inundações, secas, todos esses problemas são consequências de ações acumuladas durante anos que agora nos trazem danos irreversíveis.


            Este ano, a Encíclica do Papa Francisco fala sobre nossa casa comum, sobre o estado em que a Terra se encontra. Também este ano, haverá a Conferência do Clima em Paris, um dos eventos mais importantes para discutir as mudanças climáticas e propor medidas para evitar o colapso. Diretora do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, Déborah Danowski nos apresenta duas visões totalmente distintas sobre o cenário em que nos encontramos.


            Enquanto a Encíclica se preocupa em deter o crescimento tecnológico para que possamos retornar ao princípio do planeta, outros pensam que o crescimento não pode parar. “Assim que a encíclica foi divulgada, por exemplo, Mark Lynas, juntamente com Ted Nordhaus e Michael Shellenberger, escreveu um artigo que foi bastante difundido nas redes, intitulado ‘Um papa contra o progresso’”, apontou Déborah.


            O tempo todo, a diretora fala sobre o fato das pessoas nem se darem conta de que suas pequenas ações contra o ambiente provocam um mal absurdo para os outros e acima de tudo para si próprias. As pessoas afirmam se importar e se preocupar com o meio ambiente, mas não abrem mão de seu estilo de vida luxuoso. Para ilustrar essa situação, temos as duas vertentes representadas por duas pessoas, uma engajada na causa de defesa ao meio ambiente e outra totalmente adversa.


            Moradora da Zona Sul do Rio, a bióloga Ana Iantorno, de 56 anos, se considera uma pessoa que se preocupa com o meio ambiente. Desde pequena, Ana sempre se preocupou em economizar água, não desperdiçar comida e não acumular lixo. "Sempre procuro reaproveitar ao máximo os alimentos em minha casa, utilizo as sobras do almoço e jantar para o dia seguinte por exemplo. No mercado procuro sempre comprar alimentos de época", afirmou Ana.


            Em contraponto com a bióloga, a moradora da Barra da Tijuca, que preferiu se identificar apenas como E.S., de 54 anos, trabalha com o comércio e afirma que não vê o aquecimento global como uma consequência das ações do homem. "Não pretendo mudar meus hábitos para evitar algo que já é previsto para acontecer há anos pelos cientistas. O homem pode até acelerar o processo, mas não acho que as minhas ações irão influenciar tanto, sou apenas uma em meio a tantos", contou a vendedora.



Questões podem influenciar reunião da ONU



Segunda carta de Francisco pede que população ajude o planeta
Davi Barros




            A reflexão gerada em torno da Encíclica Laudato Si', lançada pelo Papa Francisco em 24 de junho deste ano, tem sido intensa. O representante do Vaticano chama a sociedade para a resolução dos problemas ambientais, tão debatido, quase nunca acordado e raramente respeitado. Segundo o ator Marcos Palmeira, o texto do Papa traz muitas esperanças para aqueles que sonham com um planeta mais sustentável, livre das grandes indústrias poluidoras e com uma população que consiga ser respeitosa com o meio ambiente.

            No que depender dos mais jovens, não haverá problema algum em se alcançar os objetos pedidos por Francisco. A estudante de psicologia Juliana Henriques, de 20 anos, diz acreditar que a população mundial vem de gerações dos que eram jovens há 30 anos. Para ela, é dever de todos garantir que outras pessoas tenham o mesmo acesso à natureza e meio ambiente hoje em dia.

            Por outro lado, ainda há pessoas mais conservadoras e que não se importam com o futuro. É o caso do empresário Cassio de Oliveira, 48 anos. Sócio de uma empresa de consultoria jurídica que faz campanha ambiental somente para pagar menos impostos, Cassio afirma que não existe efeito estufa. “Se a natureza já superou diversos desastres, como não vai conseguir passar por um aumento de 2ºC? Se é que isso existe mesmo”, questionou.

As últimas esperanças

     Entre os dias 30 de novembro e 11 de dezembro vai ser realizada a 21ª Conferência do Clima, em Paris. Espera-se que o encontro ache uma forma de todos os países chegarem a um acordo sobre as mudanças climáticas. A principal meta da Convenção da ONU é conseguir reduzir a emissão dos gases que provocam o efeito estufa. Juntamente a isso, estabelecer um limite de crescimento da temperatura do planeta em 2ºC.

            De acordo com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, o Brasil tem a intenção de garantir um acordo entre os países para aplacar o aquecimento global. O pacto deve substituir o Protocolo de Kyoto que expirava em 2012 e chegou a ser prorrogado na 18ª Conferência do Clima, em Doha, no Catar.

            Laudato Sí também foi publicada com a intenção de influenciar os líderes mundiais que vão se reunir em Paris. Na carta, o Papa Francisco faz um apelo não só aos chefes de estado, mas a todos que vivem na Terra. “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. Desejo agradecer, encorajar e manifestar apreço a quantos, nos mais variados setores da atividade humana, trabalham para garantir a proteção da casa que partilhamos.”

“Eu acho que é
nosso dever de
cidadão fazer com
que filhos, netos
e outras gerações
possam ter o mesmo
e, de preferência,
até melhor do que
temos atualmente”

Juliana Henriques
Estudante da PUC


Papa e Marcos Palmeiras dialogam

Os agrotóxicos utilizados em grande parte das plantações estão afetando a saúde dos consumidores. Além do risco de atrapalhar o desenvolvimento de bebês em mulheres gestantes, ampliar a chance câncer em quem manuseia os objetos e contaminar o solo, os agrotóxicos também extinguem os animais que se alimentam daquelas plantas.

Na carta encíclica do Papa Francisco Laudato Si' o santo-padre afirmou que por vezes ocorre um fato que está acabando com qualquer elemento do meio ambiente pode-se causar uma tragédia colossal. “Normalmente cria-se um círculo vicioso, no qual a intervenção humana, para resolver uma dificuldade, muitas vezes ainda agrava mais a situação. Por exemplo, muitos pássaros e insetos, que desaparecem por causa dos agrotóxicos criados pela tecnologia, são úteis para a própria agricultura, e o seu desaparecimento deverá ser compensado por outra intervenção tecnológica que possivelmente trará novos efeitos nocivos.”

Os produtos orgânicos têm crescido demasiadamente nos últimos anos e se mostrado uma excelente fonte de renda para os fabricantes desses alimentos. Tanto que empresas grandes como Unilever, Coca-Cola e Danone passaram a ter seus produtos baseados nesse tipo de fabricação. Porém, os alimentos orgânicos são alvos de críticas, já que vão de encontro ao poderoso mercado de agrotóxicos e roubam uma parte dos consumidores.

Segundo o ator e dono da fazenda e marca Vale das Palmeiras, Marcos Palmeira, as críticas que atingem os produtos orgânicos (como a ocupação extensiva e a produtividade baixa) são oriundas de mentiras dos produtores de agrotóxicos e insumos químicos. “Era o discurso da revolução verde, que sem agrotóxico e adubo químico não conseguiríamos alimentar o mundo. Pois bem, o mundo continua com fome e cada vez mais doente”, disse.

Crise hídrica pede reeducação ambiental





Mudança de hábitos de consumo e produção são prioridades
 Izabela Antunes Gomes Silva




O Brasil passa, atualmente, pela maior crise hídrica da história. Um relatório da Agência Nacional de Águas (ANA) apontou que o Reservatório do Paraibuna, principal canal de abastecimento do Rio de Janeiro, sofre a pior seca da história. O nível chegou a 1,7% do volume útil e deve voltar ao volume morto. A escassez de água é apenas um dos resultados de décadas de exploração irregular sobre o meio ambiente. Como economizar água no banho, evitar o desperdício e diminuir a produção de lixo são pautas que habitam o nosso cotidiano como tentativas de amenizar esses danos.

A professora do curso de Agronomia da Universidade Federal de Pernambuco Gizelia Ferreira explica que as práticas devem ir além da reciclagem e do reaproveitamento.  “A reeducação ambiental já existe nos parâmetros curriculares oficiais, mas não é trabalhada de uma forma que rompa com os hábitos de consumo e produção. Ela vem sendo trabalhada principalmente para construir hábitos de remediação.”

Para Luiza Vieira, de 27 anos, reeducação ambiental significa desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes relacionadas à preservação do meio ambiente. O primeiro passo foi dado. “Estou construindo uma pequena horta nos fundos de casa, porque pagar para comer agrotóxico é estupidez.” A iniciativa é uma crítica à agricultura atual no Brasil, baseada em medidas baratas e agressivas à natureza. 


 “A educação ambiental
 já  existe nos 
parâmetros  
curriculares 
oficiais, mas  não é 
trabalhada de uma 
forma  que rompa com 
os hábitos de consumo 
e produção"
Gizelia Ferreira
Professora da UFPE


O primeiro passo

Algumas medidas estão sendo tomadas há anos por governos e instituições para incentivar a alteração nas formas de consumo e produção. A 21ª Conferência do Clima (COP 21), que será realizada em Paris no mês de dezembro, terá como principal objetivo costurar um novo acordo entre os países para diminuir a emissão de gases de efeito estufa, reduzindo o aquecimento global e em consequência limitar o aumento da temperatura global em 2ºC até 2100.

De acordo com Gizelia, professora da UFPE, o momento atual é oportuno para a população abrir os olhos: “Agora a possibilidade de as pessoas se interessarem e realmente quererem mudar é maior porque a crise ambiental está batendo na porta delas, com a falta de água e mudanças no clima das cidades. Esta educação deve mostrar e fazer as pessoas perceberem o quanto o ambiente  está integrado a elas também.”

No trecho “Educar para a aliança entre a sociedade e o meio ambiente”, da Encíclica Laudato Si', o Papa Francisco explica a necessidade de fazer com que os hábitos amadureçam e permaneçam na nossa sociedade através da construção de uma cidadania ecológica. “Para a norma jurídica produzir efeitos importantes e duradouros, é preciso que a maior parte dos membros da sociedade a tenha acolhido, com base em motivações adequadas, e reaja com uma transformação pessoal.”


A crise é maior do que se imagina

Durante os últimos anos a ideia de uma vida sustentável habita o cotidiano de parte da população mundial. No entanto, ao mesmo tempo fala-se sobre um “retrocesso ambiental” vivido pela humanidade, fruto do sistema capitalista. É um sistema econômico que induz ao consumismo da população através de propagandas e padrões de consumo e, a partir daí, incentiva a busca por matéria-prima para suprir essa demanda de consumo. Um estudo divulgado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, por exemplo, afirma que o Cerrado e a Floresta Amazônica estão sendo dizimadas para o cultivo de soja, milho e gado com produção, em maior parte, voltada para a exportação.

Gizelia acrescenta que cada região deve refletir sobre quais são os níveis de sustentabilidade que devem alcançar para se manterem e criarem alternativas produtivas e de consumo. “Em outros países têm ocorrido o mesmo, explora-se, degrada-se, muda-se para outra região e o ciclo continua. O retrocesso ambiental é uma produção da exploração do capital, e não é só ecológico: é um retrocesso social, cultural, político e econômico.”

A dificuldade de aceitação das medidas que visam ao futuro do planeta se dá pela cultura imediatista em que vivemos. Para Kátia Pereira, comerciante de 44 anos, a gravidade da crise hídrica não parece ser tão ruim. “As novas tecnologias estão aí para nos ajudar, o homem consegue dar um jeito em tudo. Talvez o futuro seja diferente, mas não será o nosso fim.”