A Encíclica alerta para
a situação, mas são necessárias atitudes de todos
O crescimento e envelhecimento da população
mundial levantam ainda mais a preocupação com o meio ambiente, tendo em vista
que o planeta há décadas mostra sinais de esgotamento e mal uso de seus
recursos. Vários especialistas mostram hoje esse ponto de vista e alertam para
uma mudança no comportamento humano, que dá sinais de criação de alternativas
ecológicas, mas está longe de uma recuperação. O diretor do NIMA e professor de
geografia da PUC-Rio, Luiz Felipe Guanaes, alerta que cuidar do meio ambiente
exige um plano a longo prazo, e que soluções imediatistas não resolvem o
problema. “Para colocar em prática os reflorestamentos, precisamos de 20
anos. São 20 anos de manutenção política, de manutenção da intencionalidade
daquela ação”, afirma.
Reforçando a necessidade de uma mudança de comportamento em escala
mundial, o Papa Francisco lançou no dia 24 de junho a sua segunda encíclica,
intitulada Laudato Si. Assim como em
outros momentos de seu papado, o pontífice inovou ao falar pela primeira vez
sobre o meio ambiente, tema principal do texto. Para Luiz Felipe Guanaes, o
documento tem uma competência técnica que chocou até especialistas no assunto.
“Nunca houve uma proximidade tão forte assim da Igreja com a ciência. E outra
coisa é que essa é a primeira vez na história que uma encíclica não está
voltada para os católicos, mas está direcionada aos humanos”, conta. Essa
inovação do Papa Francisco leva a uma reflexão sobre os cuidados com o meio
ambiente capaz de mudar atitudes individuais. A publicitária Maria Lusia, por
exemplo, passou a consumir consciente há pouco tempo, e afirma que agora pensa sempre
agir consciente para gastar menos água e gerar menos lixo no seu dia a dia.
Necessidade de mudanças
“O clima
é um bem comum, um bem de todos e para todos. A nível global, é um sistema
complexo, que tem a ver com muitas condições essenciais para a vida humana.”. Falta
de água, enchente, desperdício, lixo em excesso, poluição e aquecimento global.
Problemas derivados de uma falta de cuidado com o meio ambiente estão presentes
em todo o mundo. Por isso, as reuniões e discussões mundiais com especialistas
e chefes de Estados são essenciais para se pensar nas mudanças a serem feitas;
como a Rio+20, que aconteceu em 2012, considerado o maior evento realizado pela
ONU com a presença de 190 nações. A Conferência do Clima de Paris será a
próxima reunião para discutir o ambiente, focada na diminuição da poluição e da
emissão de CO2, que acontecerá entre 30 de novembro e 11 de dezembro.
Organizada pela ONU e com expectativa de participação de 50 mil pessoas de 196
países, a Conferência será um momento decisivo que pretende estabelecer planos
com efeitos já para 2020.
A
situação atual do planeta é de urgência não só para os países em geral mas para
cada um. Como o Papa Francisco destaca na Encíclica: “Se a tendência atual se
mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e
de uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências
para todos nós. Por exemplo, a subida do nível do mar pode criar situações de
extrema gravidade, se se considera que um quarto da população mundial vive à
beira-mar ou muito perto dele, e a maior parte das megacidades está situada em
áreas costeiras”. Ou seja, se nada for feito, além da falta de recursos que já
pode ser presenciada, o clima continuará mudando, sem chance de retorno, que
não vai apenas mudar a temperatura, mas fará com que a terra se reduza, levando
a uma crise humana séria.
“Essa é a
primeira vez
na história
que
uma encíclica
não está
voltada
para os
católicos,
mas está
direcionada
aos humanos”
Luiz Felipe
Guanaes Rego,
professor
de geografia da PUC-Rio
Crise ecológica no Brasil
A crise
da água no Sudeste é assunto atual na política e nos moradores da região, mas
não é uma novidade. O professor Luiz Felipe Guanaes Rego alerta que o problema
já era conhecido. “A questão hídrica no sudeste, por exemplo, já é
discutida de forma técnica há 15 anos. Nas universidades esse assunto já era
discutido há muito tempo. E até ano passado o governo de São Paulo dizia que
simplesmente não tinha problema nenhum. É um negócio que beira a esquizofrenia.”. Guanaes, que possui doutorado em Recursos Naturais
pela Universidade Albert Ludwigs de Freiburg, na Alemanha, se diz preocupado a
situação do meio ambiente no país hoje. Para ele, o Brasil em relação ao meio
ambiente está em um retrocesso em termos de legislação e a ideia de
desenvolvimento a qualquer preço está desvalorizando a questão ambiental.
Sobre a
questão do lixo, o diretor do Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente (NIMA)
da PUC, as grandes indústrias e corporações estimulam o consumo porque é de
interesse deles esse consumo, mesmo que ele produza lixo desnecessário. Ele
fala ainda do problema do uso exagerado do plástico no dia a dia. “É um
modelo. Da extração do petróleo, é gerada a gasolina e são gerados subprodutos
como o plástico. Só que o plástico não entra no ciclo de decomposição biológico,
é um troço que só acumula. Vai chegar uma hora em que só se vai ter plástico em
todos os lugares”, destaca.
Guanaes,
especialista da área de Geociências e na transformação da paisagem, diz que a
cidade demonstra o descontrole social máximo do homem em relação ao espaço em
que ele vive. Ele cita a previsão de que até 2030 metade da população mundial
vai viver em cidades. E dá um alerta: “A cidade é o logos do humano. É a
expressão máxima da incapacidade do homem de ter uma gestão mais inteligente
consigo e com o outro”.
O ser humano tem uma tendência de querer ações imediatas. Acham que a solução para um problema se resolve em frações de segundos. Tudo leva tempo, tudo precisa ser planejado, e bem planejado. Somos imediatistas, até mesmo por vivermos em uma sociedade líquida, mas precisamos entender o impacto de nossas ações como um processo gradual e acumulativo, que aos poucos podem degradar ainda mais o meio ambiente ou solucionar certos problemas. O primeiro passo para essa consciência é através do diálogo, estar aberto a ouvir o outro, a entender a lógica do outro e qual a ideia daquela pessoa para mudar e melhorar o planeta. Não adianta querermos mudança e continuarmos estagnados, sem a abertura. O segundo passo é o planejamento. Precisamos estudar e entender, por exemplo, como que podemos despoluir os rios. Depois precisamos entender que tudo leva um tempo para que haja um resultado concreto.
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