quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Crise hídrica pede reeducação ambiental





Mudança de hábitos de consumo e produção são prioridades
 Izabela Antunes Gomes Silva




O Brasil passa, atualmente, pela maior crise hídrica da história. Um relatório da Agência Nacional de Águas (ANA) apontou que o Reservatório do Paraibuna, principal canal de abastecimento do Rio de Janeiro, sofre a pior seca da história. O nível chegou a 1,7% do volume útil e deve voltar ao volume morto. A escassez de água é apenas um dos resultados de décadas de exploração irregular sobre o meio ambiente. Como economizar água no banho, evitar o desperdício e diminuir a produção de lixo são pautas que habitam o nosso cotidiano como tentativas de amenizar esses danos.

A professora do curso de Agronomia da Universidade Federal de Pernambuco Gizelia Ferreira explica que as práticas devem ir além da reciclagem e do reaproveitamento.  “A reeducação ambiental já existe nos parâmetros curriculares oficiais, mas não é trabalhada de uma forma que rompa com os hábitos de consumo e produção. Ela vem sendo trabalhada principalmente para construir hábitos de remediação.”

Para Luiza Vieira, de 27 anos, reeducação ambiental significa desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes relacionadas à preservação do meio ambiente. O primeiro passo foi dado. “Estou construindo uma pequena horta nos fundos de casa, porque pagar para comer agrotóxico é estupidez.” A iniciativa é uma crítica à agricultura atual no Brasil, baseada em medidas baratas e agressivas à natureza. 


 “A educação ambiental
 já  existe nos 
parâmetros  
curriculares 
oficiais, mas  não é 
trabalhada de uma 
forma  que rompa com 
os hábitos de consumo 
e produção"
Gizelia Ferreira
Professora da UFPE


O primeiro passo

Algumas medidas estão sendo tomadas há anos por governos e instituições para incentivar a alteração nas formas de consumo e produção. A 21ª Conferência do Clima (COP 21), que será realizada em Paris no mês de dezembro, terá como principal objetivo costurar um novo acordo entre os países para diminuir a emissão de gases de efeito estufa, reduzindo o aquecimento global e em consequência limitar o aumento da temperatura global em 2ºC até 2100.

De acordo com Gizelia, professora da UFPE, o momento atual é oportuno para a população abrir os olhos: “Agora a possibilidade de as pessoas se interessarem e realmente quererem mudar é maior porque a crise ambiental está batendo na porta delas, com a falta de água e mudanças no clima das cidades. Esta educação deve mostrar e fazer as pessoas perceberem o quanto o ambiente  está integrado a elas também.”

No trecho “Educar para a aliança entre a sociedade e o meio ambiente”, da Encíclica Laudato Si', o Papa Francisco explica a necessidade de fazer com que os hábitos amadureçam e permaneçam na nossa sociedade através da construção de uma cidadania ecológica. “Para a norma jurídica produzir efeitos importantes e duradouros, é preciso que a maior parte dos membros da sociedade a tenha acolhido, com base em motivações adequadas, e reaja com uma transformação pessoal.”


A crise é maior do que se imagina

Durante os últimos anos a ideia de uma vida sustentável habita o cotidiano de parte da população mundial. No entanto, ao mesmo tempo fala-se sobre um “retrocesso ambiental” vivido pela humanidade, fruto do sistema capitalista. É um sistema econômico que induz ao consumismo da população através de propagandas e padrões de consumo e, a partir daí, incentiva a busca por matéria-prima para suprir essa demanda de consumo. Um estudo divulgado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, por exemplo, afirma que o Cerrado e a Floresta Amazônica estão sendo dizimadas para o cultivo de soja, milho e gado com produção, em maior parte, voltada para a exportação.

Gizelia acrescenta que cada região deve refletir sobre quais são os níveis de sustentabilidade que devem alcançar para se manterem e criarem alternativas produtivas e de consumo. “Em outros países têm ocorrido o mesmo, explora-se, degrada-se, muda-se para outra região e o ciclo continua. O retrocesso ambiental é uma produção da exploração do capital, e não é só ecológico: é um retrocesso social, cultural, político e econômico.”

A dificuldade de aceitação das medidas que visam ao futuro do planeta se dá pela cultura imediatista em que vivemos. Para Kátia Pereira, comerciante de 44 anos, a gravidade da crise hídrica não parece ser tão ruim. “As novas tecnologias estão aí para nos ajudar, o homem consegue dar um jeito em tudo. Talvez o futuro seja diferente, mas não será o nosso fim.”

Um comentário:

  1. Acredito que a implementação de práticas ambientais como hortas caseiras - como a da Luiza -, o reaproveitamento de alimentos e materiais também são um passo a frente na construção de uma reeducação ambiental. Porém, não basta as pessoas fazerem essas ações se não há investimento do governo. Para que ocorram mudanças significativas no meio ambiente é necessário que não só a população colabore mas que também o governo de base de investimento para ações "ecofriendly" no país, o que sabemos que infelizmente ainda não acontece.
    E apesar de estarmos no momento vivendo um "retrocesso ambiental" devido ao consumismo, acredito que estamos caminhando para um processo inverso: o lowsumerism. Esse vídeo de uma empresa de pesquisa de tendências comportamentais é bem bacana e explica bem o que é: https://www.youtube.com/watch?v=jk5gLBIhJtA

    Gisele Ferreira - 9h

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