quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Encíclica mostra preocupação com o planeta



Especialista em paisagismo ambiental sugere mudança de hábito
Giulia Rotstein






            O Brasil encara uma crise hídrica sem precedentes. Esse é o cenário que estamos enfrentando há algumas décadas, mas que só agora tomou proporções gigantescas. A falta d’água sempre existiu, entretanto, a população tem sentido na pele ultimamente. O racionamento, já é uma realidade em algumas casas no interior de cidade de São Paulo, onde a situação da crise é extremamente frágil.


            Na Encíclica Laudato Si',  o Papa Francisco fala sobre a casa comum e aborda a situação alarmante em que o planeta se encontra. A impossibilidade de nos sustentarmos hoje em dia é bem visível, e a crise hídrica serviu para evidenciar ainda mais esse quadro. “O nível atual de consumo dos países mais desenvolvidos e dos setores mais ricos da sociedade, onde os hábitos de desperdiçar e jogar fora atingem níveis inauditos.” No trecho retirado da Encíclica fica claro a preocupação do Papa em relação à falta de resiliência do planeta.


            A professora de paisagismo ambiental Cecília Beatriz da Veiga Soares afirma que usa de seu curso para levar formas de evitar o desperdício e reaproveitar recursos naturais. “Paisagismo não é apenas para o embelezamento, no sentido decorativo, é imprescindível a preocupação com a qualidade de vida dos habitantes. Com a importância de preservar nosso planeta da destruição, o paisagismo deve abranger preservação e ecologia”, contou a paisagista.


            Além da situação da água no mundo, na Encíclica, o Papa também engloba uma questão muito importante que é pouco discutida. O fato de as pessoas mais pobres serem as primeiras a sofrerem com fragilidade do planeta. Em relação à falta d'água, os mais necessitados são também os mais prejudicados. Na maioria das vezes, a água nem chega até eles e, se chega, a qualidade é desumana. Na Encíclica, nos é mostrado como o estado que a água chega aos mais necessitados causa mortes. "Entre os pobres, são frequentes as doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por microrganismos e substâncias químicas. A diarreia e a cólera, consequências de poucos serviços de higiene e reservas de água inadequadas, constituem um fator significativo de sofrimento e mortalidade infantil."


            Sobre a falta d'água aqui no Brasil, Cecília disse que mudou alguns hábitos de sua rotina para que evitasse ainda mais o desperdício. Há muito tempo, ela já se preocupa com a situação do planeta e pensa no futuro de seus filhos e netos. 

     - É uma obrigação cuidarmos do desperdício de água. Com a falta de chuva devido ao desmatamento e os reservatórios muito abaixo da média, fomos obrigados a mudar alguns hábitos em nossas vidas. O triste é que ainda tem gente que acha que isso não é necessário -  afirmou a professora.



Paisagismo não é
apenas para o
embelezamento,
no sentido
decorativo,
é imprescindível a
preocupação com a
qualidade de vida
dos habitantes.”


Cecília Beatriz da Veiga Soares
Paisagista ambiental



COP 21: Buscando Soluções



            Desde o verão passado, os brasileiros vêm sentindo na pele os efeitos das mudanças climáticas. Na estação mais quente do ano, a chuva sempre refrescava no fim do dia, as conhecidas chuvas de verão. Entretanto, no verão de 2014 o cenário foi completamente diferente. As esperadas chuvas não vieram, trazendo assim o problema da falta d'água nos reservatórios da cidade de São Paulo. Quem diria que um dia, a terra da garoa estaria seca como o sertão do Nordeste.


            A professora Cecília Beatriz da Veiga Soares, que também é diretora da Sociedade dos Amigos do Jardim Botânico (SAJB), explica as medidas a serem tomadas para enfrentarmos essas mudanças. "Atualmente a população mundial começa a entender os efeitos das mudanças climáticas e cada país deve indicar agora o que está disposto a fazer. Em novembro, haverá uma reunião importantíssima, a Conferência do Clima, a COP 21 em Paris”.


            A Conferência acontece num momento crucial em que decisões devem ser tomadas efetivamente para que o pior não aconteça. O intuito é que com os acordos, o aquecimento global não ultrapasse a marca de 2 graus Celsius. Esperamos medidas drásticas e eficazes, ao contrário nossa sobrevivência no planeta será cada vez mais difícil.  




Extremos da mesma moeda


            O planeta vem passando por uma série de crises, uma desencadeando outra, e quase todas causadas por nós, seres humanos. Falta d'água, acúmulo e produção desenfreada de lixo, poluição sonora e do ar, inundações, secas, todos esses problemas são consequências de ações acumuladas durante anos que agora nos trazem danos irreversíveis.


            Este ano, a Encíclica do Papa Francisco fala sobre nossa casa comum, sobre o estado em que a Terra se encontra. Também este ano, haverá a Conferência do Clima em Paris, um dos eventos mais importantes para discutir as mudanças climáticas e propor medidas para evitar o colapso. Diretora do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, Déborah Danowski nos apresenta duas visões totalmente distintas sobre o cenário em que nos encontramos.


            Enquanto a Encíclica se preocupa em deter o crescimento tecnológico para que possamos retornar ao princípio do planeta, outros pensam que o crescimento não pode parar. “Assim que a encíclica foi divulgada, por exemplo, Mark Lynas, juntamente com Ted Nordhaus e Michael Shellenberger, escreveu um artigo que foi bastante difundido nas redes, intitulado ‘Um papa contra o progresso’”, apontou Déborah.


            O tempo todo, a diretora fala sobre o fato das pessoas nem se darem conta de que suas pequenas ações contra o ambiente provocam um mal absurdo para os outros e acima de tudo para si próprias. As pessoas afirmam se importar e se preocupar com o meio ambiente, mas não abrem mão de seu estilo de vida luxuoso. Para ilustrar essa situação, temos as duas vertentes representadas por duas pessoas, uma engajada na causa de defesa ao meio ambiente e outra totalmente adversa.


            Moradora da Zona Sul do Rio, a bióloga Ana Iantorno, de 56 anos, se considera uma pessoa que se preocupa com o meio ambiente. Desde pequena, Ana sempre se preocupou em economizar água, não desperdiçar comida e não acumular lixo. "Sempre procuro reaproveitar ao máximo os alimentos em minha casa, utilizo as sobras do almoço e jantar para o dia seguinte por exemplo. No mercado procuro sempre comprar alimentos de época", afirmou Ana.


            Em contraponto com a bióloga, a moradora da Barra da Tijuca, que preferiu se identificar apenas como E.S., de 54 anos, trabalha com o comércio e afirma que não vê o aquecimento global como uma consequência das ações do homem. "Não pretendo mudar meus hábitos para evitar algo que já é previsto para acontecer há anos pelos cientistas. O homem pode até acelerar o processo, mas não acho que as minhas ações irão influenciar tanto, sou apenas uma em meio a tantos", contou a vendedora.



Um comentário:

  1. Chega a ser assustador passarmos por paisagens que antes conhecíamos de uma maneira e hoje não vemos mais nada daquilo que era. O rio Paraíba do Sul, que faz a divisa do Rio de Janeiro com Minas Gerais, é um exemplo desse contraste do passado com o presente. Pra mim, que faço conexão Rio x Minas direto (por ter vindo de lá), é assustador ver como esse rio parecia uma cachoeira antigamente quando passávamos por esse trecho e hoje em dia é apenas um córrego pequeno, onde a água não consegue nem fluir direito. O racionamento é uma realidade para o pessoal do sudeste. São Paulo, como comentado na matéria, teve seu maior ibope por ser capital, mas isso não exclui o interior do Rio e de Minas que também ficam as vezes um dia inteiro sem água.
    Assim como a entrevistada da matéria, também acho que tudo que façamos a partir de agora tem que ser revertido em preservação do meio ambiente. Uma das nossas chances, além de cada um fazer sua parte, é que essa Conferência do Clima, que vai acontecer em Paris, saia com soluções plausíveis a curto prazo para o planeta.

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