Mudança de hábitos de consumo e produção
são prioridades
O
Brasil passa, atualmente, pela maior crise hídrica da história. Um relatório da
Agência Nacional de Águas (ANA) apontou que o Reservatório do Paraibuna,
principal canal de abastecimento do Rio de Janeiro, sofre a pior seca da
história. O nível chegou a 1,7% do volume útil e deve voltar ao volume morto. A
escassez de água é apenas um dos resultados de décadas de exploração irregular
sobre o meio ambiente. Como economizar água no banho, evitar o desperdício e
diminuir a produção de lixo são pautas que habitam o nosso cotidiano como
tentativas de amenizar esses danos.
A
professora do curso de Agronomia da Universidade Federal de Pernambuco Gizelia
Ferreira explica que as práticas devem ir além da reciclagem e do
reaproveitamento. “A reeducação ambiental já existe nos parâmetros curriculares
oficiais, mas não é trabalhada de uma forma que rompa com os hábitos de consumo
e produção. Ela vem sendo trabalhada principalmente para construir hábitos de
remediação.”
Para
Luiza Vieira, de 27 anos, reeducação ambiental significa desenvolver conhecimentos,
habilidades e atitudes relacionadas à preservação do meio ambiente. O primeiro
passo foi dado. “Estou construindo uma pequena horta nos fundos de casa, porque
pagar para comer agrotóxico é estupidez.” A iniciativa é uma crítica à
agricultura atual no Brasil, baseada em medidas baratas e agressivas à
natureza.
“A educação ambiental
já existe nos
parâmetros
curriculares
oficiais, mas não é
trabalhada de uma
forma que rompa com
os hábitos de consumo
e produção"
já existe nos
parâmetros
curriculares
oficiais, mas não é
trabalhada de uma
forma que rompa com
os hábitos de consumo
e produção"
Gizelia
Ferreira
Professora
da UFPE
O primeiro passo
Algumas
medidas estão sendo tomadas há anos por governos e instituições para incentivar
a alteração nas formas de consumo e produção. A 21ª Conferência do Clima (COP
21), que será realizada em Paris no mês de dezembro, terá como principal
objetivo costurar um novo acordo entre os países para diminuir a emissão de gases
de efeito estufa, reduzindo o aquecimento global e em consequência limitar o
aumento da temperatura global em 2ºC até 2100.
De
acordo com Gizelia, professora da UFPE, o momento atual é oportuno para a
população abrir os olhos: “Agora a possibilidade de as pessoas se interessarem
e realmente quererem mudar é maior porque a crise ambiental está batendo na
porta delas, com a falta de água e mudanças no clima das cidades. Esta educação
deve mostrar e fazer as pessoas perceberem o quanto o ambiente está integrado a elas também.”
No
trecho “Educar para a aliança entre a sociedade e o meio ambiente”, da
Encíclica Laudato Si', o Papa
Francisco explica a necessidade de fazer com que os hábitos amadureçam e
permaneçam na nossa sociedade através da construção de uma cidadania ecológica. “Para
a norma jurídica produzir efeitos importantes e duradouros, é preciso que a
maior parte dos membros da sociedade a tenha acolhido, com base em motivações
adequadas, e reaja com uma transformação pessoal.”
A crise é maior do que se imagina
Durante
os últimos anos a ideia de uma vida sustentável habita o cotidiano de parte da
população mundial. No entanto, ao mesmo tempo fala-se sobre um “retrocesso
ambiental” vivido pela humanidade, fruto do sistema capitalista. É um sistema
econômico que induz ao consumismo da população através de propagandas e padrões
de consumo e, a partir daí, incentiva a busca por matéria-prima para suprir
essa demanda de consumo. Um estudo divulgado pela Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária, por exemplo, afirma que o Cerrado e a Floresta Amazônica
estão sendo dizimadas para o cultivo de soja, milho e gado com produção, em
maior parte, voltada para a exportação.
Gizelia
acrescenta que cada região deve refletir sobre quais são os níveis de
sustentabilidade que devem alcançar para se manterem e criarem alternativas
produtivas e de consumo. “Em outros países têm ocorrido o mesmo, explora-se,
degrada-se, muda-se para outra região e o ciclo continua. O retrocesso
ambiental é uma produção da exploração do capital, e não é só ecológico: é um
retrocesso social, cultural, político e econômico.”
A
dificuldade de aceitação das medidas que visam ao futuro do planeta se dá pela
cultura imediatista em que vivemos. Para Kátia Pereira, comerciante de 44 anos,
a gravidade da crise hídrica não parece ser tão ruim. “As novas tecnologias
estão aí para nos ajudar, o homem consegue dar um jeito em tudo. Talvez o
futuro seja diferente, mas não será o nosso fim.”
Acredito que a implementação de práticas ambientais como hortas caseiras - como a da Luiza -, o reaproveitamento de alimentos e materiais também são um passo a frente na construção de uma reeducação ambiental. Porém, não basta as pessoas fazerem essas ações se não há investimento do governo. Para que ocorram mudanças significativas no meio ambiente é necessário que não só a população colabore mas que também o governo de base de investimento para ações "ecofriendly" no país, o que sabemos que infelizmente ainda não acontece.
ResponderExcluirE apesar de estarmos no momento vivendo um "retrocesso ambiental" devido ao consumismo, acredito que estamos caminhando para um processo inverso: o lowsumerism. Esse vídeo de uma empresa de pesquisa de tendências comportamentais é bem bacana e explica bem o que é: https://www.youtube.com/watch?v=jk5gLBIhJtA
Gisele Ferreira - 9h