quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Carta do Papa alerta para a crise ecológica




                                     Consumo e a falta de conscientização preocupam

Isabela Giantomaso





     Assim como uma andorinha só não faz verão, apenas um pequeno grupo de pessoas adotar hábitos sustentáveis não vai mudar o planeta. Na encíclia Laudato Si', lançada em 18 de junho, o papa Francisco ressalta a crise ecológica e demonstra preocupação com a Terra e com os problemas decorrentes da globalização. Para Pedro Fasura, coordenador do laboratório de biodiversidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o pontífice acerta ao falar na carta sobre o consumismo das populações e que ações alternativas estão longe de ser suficientes para resolver os problemas.

     “O uso de ecobags, bicicletas e a adoção de caronas compartilhadas colabora para a natureza, mas ainda falta a compreensão para a gravidade do problema. Seria ótimo se conseguíssemos viver com todas as alternativas em cidades grandes como São Paulo e Rio de Janeiro”, acredita o biólogo.

     Apesar da divulgação internacional, a carta do papa não agrada a todos. Lorena Carvalho, estudante de medicina, afirma que a crise ecológica não é tão grave como apontada na encíclica e que a agricultura gasta mais água do que qualquer família ou fábrica. “Não sou desinteressada no futuro do ambiente, mas me importo mais com outras coisas, como o meu momento de relaxamento no banho após um dia cansativo”, relata a estudante. Para Lorena, filha de um empresário do ramo de saúde, a correria diária é um dos motivos para não conseguir parar e pensar em falta de água, reciclagem e poluição.

Comprometimento e conscientização

      Preocupado com o futuro do meio ambiente nos próximos anos, o papa Francisco ressalta em vários pontos da encíclica a necessidade de uma conscientização real das pessoas. Para ele, o gasto só aumenta, mesmo que muitos percebam o que está acontecendo. “Cresceu a sensibilidade ecológica das populações, mas é ainda insuficiente para mudar os hábitos nocivos de consumo, que não parecem diminuir; antes, expandem-se e desenvolvem-se”, escreve o pontífice na carta.

     Agendada para começar no dia 30 de novembro, a Conferência do Clima em Paris promete discutir as ações práticas em relação ao meio ambiente. Com participação de 196 nações, a reunião quer firmar um pacto através da ONU (Organização das Nações Unidas) para combater as transformações pelas quais passa o clima mundial. Para Pedro Fasura, a discussão é importante, mas está atrasada: “Se observarmos os níveis de crescimento dos países, desenvolvidos ou não, é perceptível que o clima está entrando em colapso. As populações aumentam sem controle nenhum e enquanto isso a fiscalização na natureza é praticamente nula”.

     Em nota oficial, Laurent Fabius, ministro dos Negócios Estrangeiros e do Desenvolvimento Internacional da França, afirma que, apesar de ser uma tarefa difícil, a Conferência de Paris vai buscar firmar um acordo climático universal. “A realização é muito complicada, pois é necessário que cada país se comprometa, a começar pelos países mais poluidores”, diz Fabius.


“Em 1970 tínhamos
alta diversidade

de espécies no 

país e hoje temos 
poucas. Algumas 
desapareceram por 
completo do meio
ambiente ou não 
deixaram filhotes”

Pedro Fasura
Biólogo



O difícil problema da poluição

     Pedro Fasura é graduado em ciências biológicas, mestre em biodiversidade e doutor em zoologia pela UFRJ. Apaixonado pela natureza desde pequeno, o biólogo coordena hoje um dos laboratórios da Universidade e passou meses entre o Oiapoque e o Chuí pesquisando novas espécies. Daqui alguns anos, espera que o país tenha consciência de cada ato contra a natureza.

Qual é o principal problema hoje no meio ambiente?
Com certeza é a poluição. Nós precisamos de um sistema de saneamento que funcione. A sociedade produz muito lixo e a reciclagem poderia diminuir essa quantidade, mas antes também precisaríamos conscientizar a população.

Tem algum outro problema que você vê como prioridade para resolver?
O crescimento desordenado das cidades e o desmatamento também merecem atenção especial. Muito do que é destruído hoje é por causa de construções irregulares. Temos um programa para vigiar a Amazônia que funciona por três semanas e logo depois já estão cortando madeira. No Rio de Janeiro, basta andar na Zona Oeste para ver prédios onde deveriam preservar árvores.

A poluição das águas no Rio de Janeiro tem solução?
Tem solução, mas dá muito trabalho. Alguns países da Europa tinham rios e lagos mais poluídos que os nossos e o governo conseguiu recuperá-los com a conscientização da população e o tratamento pesado de água. Se eles conseguiram o Brasil também consegue, basta querer e investir.

Quantos animais são prejudicados com a poluição das águas?
Todos os animais são prejudicados, direta e indiretamente. Em 1970, tínhamos
alta diversidade de espécies no país e hoje temos poucas. Algumas desapareceram por completo do meio ambiente ou não deixaram filhotes. A água é a chave essencial para o ecossistema. Todos os organismos precisam de água. Além dos animais nós também somos prejudicados todos os dias. 

Um comentário:

  1. Ótima entrevista! Saber que alguns países da Europa tinham rios tão poluídos quantos os nossos, e mesmo assim conseguiram mudar esse cenário, nos dá esperanças!

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