A Terra pede por soluções urgentes dos governantes,
das empresas e do cidadão comum
A Carta Encíclica Laudato Si', do Papa Francisco, lançada
no dia 18 de junho, e a Conferência de Paris, que será realizada pela ONU, a
partir do dia 30 de novembro, são dois pedidos de urgência sobre a casa comum,
o planeta Terra. Ambas têm o objetivo de despertar a atenção dos governantes,
das instituições, das empresas e dos organismos não governamentais, assim como
também, do cidadão. Em entrevista, a professora de ciências biológicas e também
coordenadora do Departamento de Biologia da PUC-Rio, Rejan Rodrigues, disse
como as espécies impactam positiva ou negativamente a natureza.
Na Carta, o papa faz algumas citações que resultou em um
artigo crítico por Mark Lynas, cientista político e jornalista. "Num dos
extremos, alguns defendem a todo custo o mito do progresso, afirmando que os
problemas ecológicos vão se resolver", afirmou Mark. Entretanto, no
primeiro capítulo da Encíclica, o pontífice destaca a importância do uso da
Terra com sabedoria. "Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por
causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos
a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la.
Esquecemos-nos de que nós mesmos somos terra. O nosso corpo é constituído pelos
elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a água vivifica-nos e
restaura-nos", ressaltou o papa.
Já a Conferência de Paris, COP21, pretende estabelecer um
acordo climático internacional para substituir o atual Protocolo de Kioto. Um
dos ministros de relações exteriores, Laurent Fabius, deu seu ponto de vista
sobre a Conferência. "Sabemos que a urgência faz existir o risco de não
conseguirmos um resultado equilibrado. Se queremos fazer de Paris um sucesso e
um ponto de inflexão, é necessário aproveitar cada ocasião", defendeu
Laurent.
Conservação da Floresta
Amazônica
A professora Rejan Rodrigues acredita no efeito coletivo
das agressões do homem à natureza. "Essa luta que a gente trava
continuamente de conservar a Floresta Amazônica, por exemplo, não é apenas por
causa dos índios que vivem ali, ou por causa da comunidade do norte do Brasil.
Estamos conservando a Floresta Amazônica porque ela representa um espaço
natural que afeta a produção agrícola do Rio Grande do Sul, que afeta o carioca
ir à praia ou não no fim de semana, e também para a condição do Caribe",
explicou Rejan.
A professora também falou que não existe lugares
isolados. "Então, não existe esse isolamento pretenso que a gente pensa na
ecologia. A gente passa a entender que é só uma questão de escala, nada do que
a gente faz passa. O que fazemos no Rio impacta quem está em outra cidade e vai
impactando. Pois toda ação gera uma reação", explicou a professora.
"Essa luta
que a gente
trava continuamente
de
conservar a Floresta Amazônica,
por exemplo, não
é apenas
por causa dos
índios que
vivem ali, ou
por causa
da comunidade do
norte
do Brasil.
Estamos conservando
a Floresta
Amazônica porque
ela representa
um espaço natural ..."
Rejan Rodrigues
professora de ciências biológicas
da PUC-Rio
Pequenas atitudes diárias
O
chamado do papa Francisco também é para o cidadão comum. O estudante Mateus
Alves, de 17 anos, é um entre tantos jovens que ainda não se conscientizaram da
importância de zelar o planeta em suas pequenas atitudes diárias. Ele afirma
que não separa o lixo orgânico do reciclável.
"Eu
costumo jogar as pilhas e baterias vencidas em um lixo comum. Não há um
incentivo por parte do governo para que haja um descarte correto nas ruas da
cidade. Eu sei que existem lugares específicos para esse tipo de coleta, mas
costumam ser muito longes. Se existisse na porta da minha casa, com certeza eu
separaria o lixo. Mas sendo longe, tenho preguiça de ir até ao local",
justificou o estudante.
Na busca por viver com o necessário
A Carta Encíclica Laudato Si, do papa Francisco, sobre o
cuidado com a casa comum critica a forma como os países mais ricos estão se
desenvolvendo sem o cuidado com o todo, o que o pontífice chama de 'ecologia
integrada'. Para a professora de ciências biológicas da PUC-Rio, Rejan
Rodrigues, a Carta também critica o consumismo excessivo da humanidade e propõe
a educação como único caminho para que os países mais pobres não repitam esse
consumismo exagerado dos países ricos.
No capítulo IV da Carta, a educação e a espiritualidade
ecológicas, o papa Francisco aborda a necessidade de mudanças no estilo de vida
das pessoas. "Dado que o mercado tende a criar um mecanismo consumista
compulsivo para vender os seus produtos, as pessoas acabam por ser arrastadas
pelo turbilhão das compras e gastos supérfluos. O consumismo obsessivo é o
reflexo subjetivo do paradigma tecno-econômico. Está a acontecer aquilo que já
assinalava Romano Guardini: o ser humano aceita os objetos comuns e as formas
habituais da vida como lhe são impostos pelos planos nacionais e pelos produtos
fabricados em série, e em geral, age assim com a impressão de que tudo isto
seja razoável e justo," escreveu o papa.
A professora Rejan afirma que precisamos de muito pouco
para viver. "Essa mudança que o papa coloca é uma mudança que de certo
modo toda a humanidade de ambientalistas e também da academia, os ecólogos, já
colocam há muito tempo. Essa necessidade de a gente viver com o que é
necessário, com aquilo que realmente nos mantenha como espécie. Eu costumo usar
muito o exemplo do celular, que a gente é forçado a usar todo o momento. Tem
sempre uma versão mais nova, mais moderna, que não vai fazer nenhuma diferença
em nossa vida," exemplificou a professora.
Para ela, a educação é a forma de a humanidade se
conscientizar daquilo que é, necessário para romper essa barreira. Ela cita a
PUC, universidade em que leciona, como um exemplo. "A formulação do curso
propõe a educar o aluno para transformar. E é isso que a gente tem, e espera
ver nos próximos 10, 20 anos, e saber que os nossos alunos fizeram e estão
fazendo a diferença nesse quadro de mundo doido que estamos vivendo",
acredita Rejan.
Acredito que o maior desafio nas questões ambientais é a consciência, a educação ecológica. Acordos, protocolos, determinações mesmo que assinadas por líderes mundiais não se cumprem quando o cidadão comum não entende a importância das ações individuais. Só quando houver uma ampla educação ecológica que vai haver pressão para que acordos sejam cumpridos e assim, planejamento e estruturação das ações ambientais. Como dito na materia, as pessoas já sabem que precisam atuar na causa, mas isso não é natural. Como o pensamento "agir localmente, pensar globalmente"... o meio ambiente funciona como uma rede e é preciso que todos os pequenos elementos cooperem e trabalhem juntos.
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